Correios afundam como Hy-Brasil, mas ministra nega crise
Correios afundam como Hy-Brasil, mas ministra nega crise

A certa altura do filme Erik, o Viking, uma ilha chamada Hy-Brasil está afundando, mas os governantes locais insistem que isso não está acontecendo e que a situação da ilha nunca foi tão boa. Em poucos minutos, a ilha afunda de vez, porque negar a realidade não basta para alterá-la. É o que deveria saber a ministra da Gestão e Inovação, Esther Dweck, que há poucos dias disse ao jornal O Globo que “o plano de recuperação (dos Correios) está indo muito bem”, a despeito do fato de que a estatal, tal como Hy-Brasil, está fazendo água por todos os lados.

Depois do prejuízo de R$ 8,5 bilhões no ano passado, o maior de sua série histórica, os Correios baterão novo recorde negativo neste ano, de cerca de R$ 10 bilhões, segundo admitiu a própria direção da empresa. São 14 trimestres consecutivos de prejuízos, mas, segundo a ministra, não há nenhum descontrole nem algo imprevisto nesses rombos. “Inclusive, o resultado do primeiro trimestre ficou melhor do que a previsão”, afirmou Esther Dweck, ao comentar o registro de mais um prejuízo recorde, desta vez de R$ 3,16 bilhões.

Apego do governo às estatais

Sabe-se da tara dos governos petistas pelas estatais, mas o caso do apego aos Correios é especial. A empresa acabou de tomar um empréstimo de R$ 12 bilhões de um consórcio de bancos, precisa de uma captação adicional de R$ 7 bilhões a R$ 8 bilhões neste ano para pagar as contas em dia, e conta, ainda, com um aporte de ao menos R$ 6 bilhões da União até o fim de 2027, de acordo com o contrato assinado com as instituições financeiras.

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Eis a melhor definição de sorvedouro de dinheiro público. Mas, segundo a ministra, em breve os Correios voltarão a ter bons resultados. Se isso realmente ocorresse, depois de um socorro dessa monta, a empresa não teria feito mais que sua obrigação, mas o pior é que nada indica que ela conseguirá cumpri-la. As despesas gerais e administrativas subiram e o faturamento com encomendas e postagens internacionais, os serviços mais lucrativos, despencou.

Luz no fim do túnel?

Há uma luz no fim do túnel, ao menos na opinião de Dweck. Os Correios conseguiram recuperar contratos e estão prestes a anunciar uma parceria com a Receita Federal para gerenciar a logística dos galpões que recebem material apreendido pelo órgão. “Vai reduzir custo da Receita e gerar receita para os Correios”, disse a confiante Esther Dweck, sem explicar a mágica que fará com que algo que gera despesa para a Receita proporcione lucro para os Correios.

O governo tenta emplacar a versão de que a crise dos Correios é pontual. Não é o caso. O Remessa Conforme, criado pelo Executivo para cobrar impostos sobre produtos importados adquiridos por meio de plataformas, foi o pretexto mais recente para as dificuldades da estatal. Mas o fato é que o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) emitem alertas sobre a deterioração da situação financeira e os riscos para a continuidade de suas operações há pelo menos dez anos.

Falhas no plano de reestruturação

As falhas no mais recente plano de reestruturação apresentado pela empresa, segundo o ministro do TCU Walton Alencar Rodrigues, são “estarrecedoras”, e a previsão de receitas futuras não parece nada factível. A corte de contas cobrou ajustes para acompanhar o andamento das medidas e colocou servidores do Tesouro Nacional em sua mira. Afinal, a União é fiadora do empréstimo dos Correios, ou seja, terá de honrá-lo em caso de calote.

Em 2024, o conjunto de 17 estatais federais dependentes recebeu nada menos que R$ 26,7 bilhões em subvenções da União. Os Correios só não fazem parte desse malfadado grupo porque não há espaço no Orçamento-Geral da União para incluir suas despesas sem descumprir as metas fiscais. O empréstimo é um reconhecimento tácito de que a empresa já não é capaz de andar com as próprias pernas e respira por aparelhos.

A solução óbvia, diante do afundamento dos Correios, seria sua privatização. Mas os governantes de Hy-Brasil não querem nem ouvir falar disso.

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