Riqueza dos bilionários salta 40% em dois anos, chegando a US$ 20,1 trilhões
Riqueza dos bilionários salta 40% e atinge US$ 20,1 trilhões

LONDRES — Há quinze anos, os bilionários do mundo tinham, coletivamente, US$ 4,5 trilhões. Em 2024, sua riqueza havia mais que triplicado, chegando a US$ 14,2 trilhões. Agora, sua riqueza combinada totaliza US$ 20,1 trilhões — um valor equivalente a quase um quinto de toda a produção anual do mundo.

Os números impressionantes — calculados pelo economista francês Gabriel Zucman, diretor do International Tax Observatory, uma organização de pesquisa financiada pela União Europeia — revelam mais do que um aumento surpreendentemente rápido da concentração de riqueza no topo. Eles também refletem uma série de tendências globais importantes: a crescente dominância de algumas empresas de tecnologia que lideram o desenvolvimento da inteligência artificial, a redução da fatia da economia destinada aos trabalhadores e o aprofundamento da desigualdade que será transmitida à próxima geração. Esses fenômenos são particularmente evidentes nos Estados Unidos, onde vive cerca de um terço dos quase 3.000 bilionários do mundo — e o primeiro trilionário, Elon Musk, após a oferta pública inicial de ações de sua empresa de foguetes e satélites, a SpaceX, na última sexta-feira, 12.

O aumento da riqueza dos bilionários, de 40% em apenas dois anos, coincidiu com mudanças significativas nas leis tributárias dos Estados Unidos ao longo da última década, que beneficiaram amplamente as famílias e acionistas mais ricos do país e ampliaram sua influência política.

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Por que os bilionários viram sua riqueza crescer tão rapidamente?

Uma das razões para a disparada recente no topo da pirâmide patrimonial é o boom da inteligência artificial, que canalizou trilhões de dólares em investimentos para um pequeno grupo de empresas de tecnologia. Nvidia, Apple, Microsoft, Alphabet, Meta e Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, por exemplo, valem individualmente mais de US$ 1 trilhão. Seus fundadores e primeiros investidores ficaram com a maior parte dos ganhos financeiros.

Podemos observar isso acontecendo com a abertura de capital da SpaceX. Com 42% das ações, Musk se tornou um trilionário instantaneamente. É difícil compreender valores tão gigantescos. Mas considere que apenas 21 países no mundo possuem economias capazes de produzir anualmente mais de US$ 1 trilhão.

O mercado de ações é onde ocorre grande parte da alquimia dos bilionários. Os lucros extraordinários das bolsas foram apropriados de forma desproporcional pela parcela mais rica da população. Sim, você pode ter participação na valorização das ações se possuir um plano de aposentadoria privada corporativa 401K nos EUA. E essas reservas ajudarão a pagar moradia, alimentação, carro, combustível, energia elétrica e outras despesas quando você parar de trabalhar.

Mas é o 1% mais rico dos americanos que detém metade de todas as ações, segundo dados do banco central dos Estados Unidos. Os 0,1% mais ricos — um grupo de cerca de 135 mil famílias — possuem ações avaliadas em US$ 13,7 trilhões. Isso é quase o dobro dos US$ 7,1 trilhões detidos pelos 90% mais pobres dos americanos, um grupo formado por cerca de 115 milhões de famílias. As empresas de tecnologia que têm um papel desproporcional na geração desses retornos criaram empregos — mas, até agora, o número de funcionários é relativamente pequeno. Os retornos dos bilionários se baseiam muito mais em investimentos de capital do que nos trabalhadores dessas empresas.

A desigualdade está crescendo

A ascensão dos bilionários está acelerando ao mesmo tempo em que os trabalhadores recebem uma parcela menor da riqueza gerada pelas economias nacionais. Tradicionalmente, ativos financeiros oferecem retornos maiores do que um salário semanal. Mas, desde o início dos anos 2000, a diferença entre os dois vem aumentando. Economistas apontam várias razões para isso: a perda de força dos sindicatos nas negociações; a disseminação da automação, da inteligência artificial e de outras tecnologias capazes de substituir trabalhadores; a transferência de empregos industriais e de outros setores para países como a China; e políticas que tributam salários muito mais pesadamente do que rendimentos de investimentos.

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Outro fator, porém, é a ascensão do que David Autor, economista do Instituto de Tecnologia de Massachusetts e codiretor acadêmico do Stone Center on Inequality and Shaping the Future of Work, e outros pesquisadores chamam de empresas superestrelas — gigantes que dominam setores inteiros. Essas empresas alteraram o equilíbrio de poder na economia, permitindo que os proprietários, e não os trabalhadores, absorvam uma parcela maior dos ganhos financeiros. As empresas superestrelas também podem funcionar como monopólios ao definir preços, conter salários e benefícios dos trabalhadores ou impor condições de trabalho desconfortáveis.

Autor ressaltou que muitos empresários bilionários agregaram enorme valor à economia. Mas acrescentou que a forma como, em alguns casos, utilizaram seu dinheiro para influenciar o processo político pode ser “fundamentalmente corrosiva”. “O problema não está necessariamente em como os bilhões são ganhos”, afirmou ele, “mas em como esse dinheiro distorce a política e em como nosso processo político está se tornando cada vez mais um sistema em que a influência depende da capacidade de pagar”.

Medir a desigualdade é difícil. Há muito debate sobre o tamanho exato da distância entre os que têm mais e os que têm menos, bem como sobre o grau de redução da participação do trabalho na riqueza produzida. Mas existe um consenso geral entre os economistas que estudam o tema de que os mais ricos estão se distanciando do restante da população mais rapidamente do que antes.

A política tributária tem papel na formação da riqueza dos bilionários

Nos Estados Unidos, mudanças nas leis tributárias ao longo dos últimos dez anos direcionaram mais benefícios para a parcela mais rica das famílias, reduzindo o montante de impostos que elas precisam pagar. Uma redução drástica da alíquota do imposto corporativo impulsionou a riqueza dos ultrarricos, permitindo que ampliassem seus ganhos à medida que as empresas utilizavam os lucros adicionais para recomprar ações.

A redução dos impostos pagos por empresas e pessoas ricas aumenta a carga tributária sobre os trabalhadores, que pagam tanto imposto de renda quanto contribuições sobre a folha salarial — dois tributos que quase não afetam a riqueza dos bilionários. Ela também reduz os recursos públicos disponíveis para financiar saúde, educação, defesa, infraestrutura e outros benefícios públicos, em um momento em que os governos enfrentam elevados níveis de endividamento.

Essas fortunas difíceis de imaginar despertaram apoio político à criação de impostos sobre patrimônio. A ideia foi defendida na Conferência Global sobre Desigualdade realizada em Paris na semana passada. Propostas desse tipo vêm sendo discutidas com mais intensidade na França, mas também na Alemanha, no Reino Unido, no Brasil e nos Estados Unidos.

Na Califórnia, onde vivem mais de 200 bilionários, líderes sindicais ajudaram a incluir na cédula eleitoral de novembro a Lei do Imposto sobre Bilionários de 2026. A medida prevê a cobrança única de 5% sobre o patrimônio líquido dos bilionários. A proposta, elaborada com contribuições de Zucman e de Emmanuel Saez, outro economista que está na linha de frente das pesquisas sobre riqueza global e desigualdade, baseou-se em cálculos que indicam que a riqueza dos bilionários da Califórnia supera atualmente US$ 2 trilhões — valor equivalente à metade de tudo o que a economia do estado produz em um ano. Entre 2023 e 2025, a riqueza dos bilionários californianos cresceu 144%.

Eles destacam que o crescente poder financeiro e político de algumas centenas de indivíduos contribui para uma desigualdade cada vez maior, que provavelmente persistirá por gerações, porque grande parte dessa riqueza escapa da tributação, criando uma aristocracia que se perpetua. Como escreveu neste ano Dario Amodei, bilionário e diretor-executivo da Anthropic, fabricante do chatbot Claude: “Já estamos em níveis historicamente sem precedentes de concentração de riqueza”, acrescentando que “o que deve preocupar é um nível de concentração de riqueza capaz de romper a sociedade”.

c.2026 The New York Times Company