Brasil x Espanha: 5 anos após ouro, abismo no futebol
Brasil x Espanha: 5 anos após ouro, abismo no futebol

Há pouco menos de cinco anos, a seleção brasileira vencia o seu segundo ouro olímpico no futebol masculino. O adversário era a Espanha, treinada por Luis de la Fuente — atual finalista da Copa do Mundo de 2026 — e composta por sete jogadores que podem levantar a taça no próximo domingo. Mas o que restou dos campeões olímpicos brasileiros? A imensidão de diferenças entre o que se fez e pensou sobre futebol no Brasil e na Espanha nesses quase 60 meses revela um abismo de planejamento e execução.

Filosofia espanhola versus desorganização brasileira

De um lado, um país que sabe como quer jogar, identificar, formar e aproveitar seus principais talentos. Do outro, um que se atrapalhou até para definir a comissão técnica, em meio a constantes trocas no comando da CBF e um trabalho de base questionável. O maior contraste está no banco de reservas. Luis de la Fuente ingressou em 2013 como treinador das seleções de base da Fúria, passou pelo sub-19 e sub-21 antes de comandar o projeto olímpico de Tóquio. A derrota por 2 a 1 na prorrogação daquela final contra o Brasil não encerrou o ciclo. Em 2023, foi escolhido para assumir o time principal, tornando-se um dos muitos profissionais que trabalharam nos últimos anos por uma ideia de jogo.

A filosofia espanhola é obedecida em todas as categorias e gêneros — a seleção feminina também atua com o mesmo padrão. Características específicas são desenvolvidas nos jogadores de acordo com posições e funções, proporcionando coletivos fortes. É claro que nem sempre a seleção espanhola se apresenta bem, mas sabe-se exatamente como ela se comportará em campo. Não se trata de ter sucesso sempre, mas de ter filosofia para alcançar padrões e resultados, insistindo nos processos que dão lógica à proposta.

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O caso André Jardine e a falta de continuidade no Brasil

No Brasil, André Jardine, comandante do time campeão olímpico em agosto de 2021, não chegou perto da oportunidade que Luis de la Fuente teve. Ficou aproximadamente seis meses sem oportunidades no país e precisou aceitar a proposta do modesto Atlético San Luis, do México. Chegou a duas quartas de final do Campeonato Mexicano com o clube fundado em 2013 e chamou a atenção do gigante América, do México. Saiu em maio de 2026, após três temporadas completas e três títulos nacionais conquistados. Será que Jardine não teria condições de seguir na CBF e assumir o time principal após a saída de Tite? Muitos podem divergir, mas a questão central é entender por que bons profissionais como ele não são aproveitados no desenvolvimento de um jeito de jogar, pinçando jogadores desde as primeiras seleções de base e encontrando sequência no processo.

Comparação numérica no elenco da Copa 2026

Se formos do banco para o campo, as comparações entre Espanha e Brasil são ainda mais estarrecedoras. Somando os jogadores utilizados pela Fúria nas duas últimas Olimpíadas que fazem parte do grupo de 26 presentes na Copa 2026, chegamos a 12 atletas — quase metade do grupo convocado por de la Fuente. A maioria foi comandada por ele na base. Pubill, Eric Garcia, Baena, Cubarsí e Joan Garcia foram campeões olímpicos em Paris-2024; dois deles são titulares no time principal. Já em Tóquio, Unai Simón, Cucurella, Merino, Zubimendi, Dani Olmo, Pedri e Oyarzábal foram vice-campeões para o Brasil, que preservou apenas Bruno Guimarães, Matheus Cunha e Martinelli no grupo que foi ao Mundial 2026. Não há continuidade ou integração nos processos entre seleções de base, olímpica e principal.

Como o Brasil não se classificou para as Olimpíadas de Paris no futebol masculino, é impossível fazer o mesmo exercício. Do time que disputou o Pré-Olímpico em janeiro e fevereiro de 2024, apenas Endrick foi convocado por Carlo Ancelotti.

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Conclusão: a necessidade de um projeto

A Espanha e a final das Olimpíadas de agosto de 2021 deveriam servir de ponto de partida para entender os motivos de tanta diferença. Apontar decisões de um treinador na eliminação é importante, e frisar carências da atual geração também. Mas há uma lacuna imensa de trabalho. Precisamos pensar e executar que tipo de jogo queremos colocar em prática. Não há movimento nesse sentido por parte da CBF. Enquanto isso, 'Jardines', 'Cunhas' e 'Martinellis' podem se perder pelo caminho sem a devida utilização. A aleatoriedade precisa ser deixada de lado na organização das seleções brasileiras.