Autonomia digital: o equilíbrio entre capacidade doméstica e integração global
Autonomia digital: o equilíbrio entre capacidade doméstica e integra

A geopolítica do século 21 incorporou ativos que antes pertenciam ao vocabulário dos engenheiros: cabos submarinos, data centers, semicondutores e inteligência artificial (IA). Como observou o ex-embaixador Rubens Barbosa em artigo neste jornal (Geopolítica da infraestrutura digital, 14/7, A5), as disputas pelo poder já ocorrem nessas camadas invisíveis da economia digital. O diagnóstico suscita a pergunta: que estratégia faz sentido para um país de nossas características?

O dilema histórico da política econômica brasileira

Durante décadas, a política econômica brasileira oscilou entre dois impulsos. Em raros momentos, despontou a convicção de que bastava abrir mercados e importar tecnologia. Em geral, prevaleceu a crença de que a autonomia exigiria produzir tudo internamente. Nenhuma dessas opções responde aos desafios da economia digital.

Considere-se a cadeia de semicondutores. O projeto de um chip, os insumos e equipamentos e sua fabricação distribuem-se por países diferentes. Nem mesmo Estados Unidos, China, Japão ou União Europeia dominam integralmente esse processo. Imaginar que o Brasil possa fazê-lo seria desperdiçar recursos escassos perseguindo um objetivo inalcançável.

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Interdependência sem resignação

É preciso compreender a interdependência sem se resignar à dependência. O problema não está em recorrer a fornecedores estrangeiros, mas em permitir que uma única empresa, uma única tecnologia ou uma única jurisdição possam interromper serviços essenciais ou limitar decisões do Estado brasileiro. A autonomia tecnológica começa onde termina essa vulnerabilidade.

A computação em nuvem ilustra a distinção. Hospedar dados em território nacional pode ser conveniente, mas pouco adianta se o funcionamento do sistema continuar condicionado ao software, às regras contratuais ou às decisões de um fornecedor que não pode ser substituído. A questão decisiva é se o País preserva condições de migrar sistemas, diversificar parceiros e manter operações críticas em circunstâncias adversas. Essa capacidade de escolha vale mais, do ponto de vista estratégico, do que qualquer discurso genérico sobre “soberania digital”.

O exemplo do Pix e os ativos brasileiros

O Pix mostrou que o Estado brasileiro pode construir uma infraestrutura pública capaz de estimular competição, inovação e investimento privado em vez de sufocá-los. O avanço do governo digital, uma matriz elétrica limpa, um grande mercado consumidor, instituições respeitadas na governança da internet e recursos minerais estratégicos oferecem bases para uma política consistente. Poucos países reúnem esse conjunto de ativos.

A falta de uma doutrina comum

O País acumula planos para cibersegurança, data centers, cabos submarinos, semicondutores e IA. Falta, porém, uma doutrina comum que responda às perguntas fundamentais: quais capacidades precisam permanecer sob controle nacional? Em quais segmentos vale a pena investir? O que continuará sendo adquirido no exterior? Como reduzir vulnerabilidades sem sacrificar eficiência?

Sem essas escolhas, a palavra “soberania” corre o risco de servir como justificativa para velhos vícios nacionais: subsídios permanentes, reservas de mercado, proteção de empresas pouco competitivas e projetos concebidos mais para manchetes do que resultados. Políticas industriais podem ampliar capacidades, mas, quando não submetem incentivos a metas, avaliação e concorrência, só perpetuam ineficiências.

Uma estratégia madura para o Brasil

Uma estratégia madura concentraria recursos num conjunto restrito de infraestruturas realmente críticas, desenvolveria competências nas áreas em que o Brasil possui vantagens plausíveis, diversificaria fornecedores, exigiria interoperabilidade dos sistemas, preservaria abertura comercial e avaliaria cada política por resultados concretos, não por intenções declaradas. A autonomia tecnológica nasce desse equilíbrio entre capacidade doméstica e integração internacional.

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A governança da economia digital será exercida por países que disponham de alternativas, conhecimento e capacidade de negociação. O Brasil não conquistará influência tentando reproduzir, dentro de suas fronteiras, toda a complexidade das cadeias globais. Tampouco a obterá permanecendo dependente de decisões tomadas em outras capitais. O desafio consiste em ampliar sua liberdade de escolha. É uma ambição menos grandiosa do que a autossuficiência, mas infinitamente mais útil – e muito mais compatível com os interesses do País.