Simon, de 28 anos, morador de Miami, começa todas as manhãs em uma sauna, com uma bolsa de gelo presa à virilha. “Eu a coloco nos testículos para preservar uma alta contagem de espermatozoides”, diz ele. A rotina inclui tomar sol diariamente, exercitar-se com frequência, beber apenas água filtrada e usar cuecas boxer de algodão — tudo na tentativa de melhorar a fertilidade, embora não haja evidências médicas de que essas práticas funcionem. Simon nunca fez um exame de análise do sêmen e não tem motivo específico para acreditar que tenha um problema, mas afirma que o conteúdo de influenciadores como Bryan Johnson o levou a “realmente se preocupar” com sua fertilidade. “É algo que, de modo geral, me assusta. Por isso, escolho proteger minha fertilidade”, afirma.
Fertilidade masculina em alta nas redes sociais
Simon faz parte de um número crescente de homens que vêm prestando mais atenção à própria fertilidade. No TikTok e no Instagram, hashtags em inglês como #malefertility, #semenanalysis e #sperm acumulam centenas de milhões de visualizações, enquanto comunidades online dedicadas a melhorar a saúde dos espermatozoides cresceram rapidamente. Especialistas em fertilidade masculina de diferentes partes do mundo afirmam ter observado um aumento no número de homens que procuram fazer exames de análise do sêmen e demonstram preocupação com sua fertilidade futura.
Segundo esses especialistas, esse movimento é impulsionado, em parte, pelas preocupações com os efeitos da terapia de reposição de testosterona (TRT), do uso de esteroides anabolizantes e da exposição a determinados poluentes ambientais — fatores que podem afetar negativamente os hormônios responsáveis pela produção de espermatozoides. O professor Suks Minhas, especialista em fertilidade no Reino Unido, afirma que o aumento das discussões sobre a queda na contagem de espermatozoides tem aspectos positivos e negativos. “É importante dar mais visibilidade à infertilidade masculina. Mas será que estamos alimentando essa preocupação de forma desnecessária?”, questiona. Ao mesmo tempo, surgiu toda uma indústria de influenciadores e produtos que se beneficia dessa ansiedade.
Influenciadores promovem protocolos sem comprovação científica
O ex-bilionário do Vale do Silício Bryan Johnson, conhecido por querer viver para sempre, afirma ter uma contagem de espermatozoides quatro vezes maior do que a média, com base em cinco exames laboratoriais realizados ao longo de três meses. Johnson promove protocolos como o uso de sauna combinado com bolsas de gelo, alegando que eles aumentam os níveis de testosterona e a contagem de espermatozoides — práticas que Simon segue. Seu conteúdo, acompanhado por mais de seis milhões de pessoas, direciona seguidores para seu site, Blueprint, onde ele vende suplementos. Outros influenciadores promovem suplementos, terapia com luz vermelha e até doação de sangue para “filtrar” microplásticos, tudo sem respaldo científico.
O naturopata Lucas é outro influenciador que alerta sobre a queda das taxas de fertilidade. “Estamos vendo uma epidemia mundial, uma redução da fertilidade em todos os aspectos”, disse ele à BBC. Em um vídeo no YouTube, afirmou que os homens seriam inférteis em 33 anos — alegação não respaldada por evidências. Ele vende cursos online, oferece consultorias e comercializa suplementos voltados para aumentar testosterona e melhorar a fertilidade. Lucas recomenda colocar uma bolsa de gelo por dentro da roupa íntima, duas ou três vezes por dia, durante 10 a 15 minutos, alegando que alguns clientes relataram gravidez após adotar a prática. “Isso ainda é preliminar. Mas acho que é uma estratégia promissora o suficiente para valer a pena tentar”, afirma. Questionado sobre a falta de comprovação científica, ele disse considerar o resfriamento dos testículos uma “intervenção promissora”, mas gostaria de ver mais pesquisas.
Declínio na contagem de espermatozoides: realidade ou exagero?
Esse tipo de conteúdo surge em meio a discussões mais amplas sobre a queda das taxas de natalidade. Globalmente, a taxa de fecundidade caiu de 4,9 filhos por mulher em 1950 para 2,2 em 2025. Atualmente, 106 países estão abaixo da chamada taxa de reposição populacional, de 2,1 filhos por mulher, segundo projeções da ONU no relatório World Population Prospects 2025. O secretário de Saúde dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., falou recentemente em uma “crise de fertilidade”, afirmando que em 1970 “os homens tinham o dobro da contagem de espermatozoides dos adolescentes de hoje”.
Análises de grande escala sugerem queda significativa na contagem e qualidade dos espermatozoides desde a década de 1970, mas não é simples fazer comparação direta, já que a idade não era o foco desses estudos. Há consenso de que a contagem está em declínio, embora alguns dados indiquem que a redução talvez não seja tão acentuada. Uma metarrevisão publicada em 2023 sobre o tema concluiu que as causas e os impactos sobre as taxas de natalidade permanecem incertos. Estudos de 2024 e 2025, analisando populações nos EUA e na Dinamarca, não encontraram evidências dessa queda e defenderam mais pesquisas.
O professor Channa Jayasena, endocrinologista especializado em reprodução do Imperial College London, acredita que há motivos legítimos para preocupação, mas afirma que as alegações sobre problemas de fertilidade masculina são exageradas nas redes sociais. “Existem, sim, alguns desafios, mas ainda está longe de estar claro quais são as causas deles”, afirma. Além disso, 39% das pessoas afirmam que razões financeiras as impedem de ter o número de filhos desejados, e uma em cada cinco cita instabilidade ambiental e política, segundo o relatório State of World Population 2025 da ONU.
Riscos dos “stacks de fertilidade” e uso de hormônios
O aumento de conselhos sobre fertilidade divulgados por influenciadores ocorre ao mesmo tempo em que cresce o número de homens que usam medicamentos para aumentar os níveis de testosterona. O uso de esteroides anabolizantes e de testosterona pode prejudicar a fertilidade masculina. Na tentativa de reverter esse dano, influenciadores promovem os chamados “stacks” — combinações de medicamentos como HCG e HMG, que são prescritos em situações médicas específicas, mas não devem ser usados para “reativar” a fertilidade sem orientação. Esses medicamentos podem causar efeitos colaterais graves, como coágulos sanguíneos e crescimento das mamas, com sequelas permanentes.
A BBC conversou com sete homens anônimos que usavam esses “stacks” para tentar recuperar a capacidade reprodutiva após terapia de reposição de testosterona. Um deles, Jamal (nome fictício), usou altas doses de testosterona e esteroides para musculação, reduzindo seus indicadores de fertilidade. Em fóruns online, encontrou recomendações de “stacks de fertilidade” como soluções “à prova de falhas”. Como não funcionaram, procurou o professor Jayasena, que o orientou a interromper todos os medicamentos. Seis meses depois, seus níveis naturais de testosterona estão melhorando, mas o hormônio responsável por estimular a produção de espermatozoides ainda permanece baixo. Jayasena está otimista de que esses níveis continuarão a se recuperar.
Segundo Jayasena, embora o aumento da conscientização sobre a fertilidade masculina seja positivo, ele também criou um vazio de informação confiável. Homens como Jamal recorrem aos conselhos de influenciadores porque nem sempre têm acesso fácil a especialistas. “Na melhor das hipóteses, isso pode apenas desviar a atenção deles das medidas que realmente poderiam ajudar. Mas, na pior, pode levá-los a adotar práticas prejudiciais à saúde”, afirma. O professor recomenda mudanças no estilo de vida, como parar de fumar, perder peso e aumentar a atividade física, como as melhores medidas para melhorar a fertilidade.



