Apenas 7,2% dos motoristas de aplicativo no Brasil conseguem cumprir suas metas diárias de renda dentro da jornada de trabalho que consideram ideal. O dado faz parte de um levantamento da GigU, em parceria com a Jangada Consultoria de Comunicação, que entrevistou aproximadamente 1.500 motoristas de todo o país.
Maioria precisa estender a jornada
Entre os entrevistados, 44,8% afirmam que precisam trabalhar além do que consideram uma jornada ideal sempre que buscam atingir seus objetivos financeiros. Outros 24,8% enfrentam essa necessidade na maior parte das semanas, enquanto 19,6% relatam que a situação varia conforme o período. Apenas uma minoria consegue equilibrar metas e carga horária desejada.
"Cada motorista possui uma meta de renda e um limite de horas trabalhadas que considera adequado", ressalta o estudo. No entanto, a realidade mostra que, para a maioria, o esforço necessário supera o planejado.
Exemplo de longas jornadas
Michel Dias, ex-ministro religioso e atualmente motorista de aplicativo, conta que trabalha cerca de 12 horas por dia para alcançar sua meta financeira. "O tempo de trabalho depende do custo que se tem com o veículo. No meu caso, tenho uma meta diária de R$ 400. Para alcançar essa meta, trabalho, em média, 12 horas, contando a partir do momento em que saio do meu portão até a hora em que retorno, fazendo uma pausa de uma hora para o almoço", comenta Dias.
Embora a relação entre esforço e remuneração possa ser satisfatória para alguns profissionais, a rotina está longe de ser previsível. "Costumo dizer que não existe um dia típico. Todo dia é uma surpresa ou traz algum acontecimento, seja por causa de ações de passageiros, dos desdobramentos do trânsito ou de eventos inesperados, como panes mecânicas, colisões ou até mesmo períodos de alta ou baixa demanda por viagens", relata Michel, que também afirma ter se envolvido em seis acidentes considerados preocupantes ao longo de dois anos.
Perfil das jornadas de trabalho
Outro estudo, também realizado pela GigU, mapeou o perfil das jornadas dos motoristas. Cerca de 58% das jornadas começam entre 6h e 11h, com maior concentração às 7h. Já 60,9% dos encerramentos ocorrem entre 17h e 23h. O intervalo entre 18h e 20h concentra quase 30% dos finais de jornada, justamente quando o fluxo de veículos aumenta nos centros urbanos após o expediente comercial.
"Em média, o intervalo entre a primeira e a última corrida do dia é de oito horas, e a maior parte dos motoristas analisados trabalha seis ou sete dias por semana. O padrão mostra que, para muitos profissionais, dirigir por aplicativos deixou de ser uma alternativa pontual e passou a fazer parte de uma jornada contínua de geração de renda", explica Júlia Camossa, estatística responsável pelos estudos.
Atividade consolida-se como profissão principal
A combinação entre metas financeiras, responsabilidade e longas jornadas evidencia que, para grande parte, a atividade deixou de ser apenas uma fonte de renda complementar e se consolidou como a principal profissão. O que surgiu como uma alternativa de renda flexível passou a exigir dedicação semelhante — ou até superior — à de empregos formais. O resultado é um cenário em que conciliar tempo de trabalho, descanso e rentabilidade se tornou um dos principais desafios.



