A comunicadora Caroline Salazar tinha 13 anos quando menstruou pela primeira vez e 31 quando recebeu o diagnóstico de endometriose avançada, em estágio de falência dos órgãos pélvicos. No meio do caminho, 18 anos de dor e abdicações convivendo com algo que, segundo a maioria dos médicos com quem buscou ajuda, não passava de uma “cólica menstrual comum”.
“Desde muito nova, eu já sentia o que hoje sei que eram sintomas da endometriose. Sempre tive muita fadiga e dores na lombar, barriga e pernas”, relembra Caroline, que precisou abandonar o atletismo logo após a menarca por não conseguir acompanhar o ritmo intenso de atividades físicas durante o período menstrual. “Aquilo tudo me incapacitava, mas eu sempre ouvia que era normal, que a dor era parte da experiência de ser mulher. Depois de tanto tempo, chega uma hora que você desiste de reclamar e só aceita.”
Normalização da dor adia diagnóstico em anos
A normalização da dor pélvica em mulheres e meninas é apontada por especialistas como um dos principais fatores para o atraso em diagnósticos e tratamentos ginecológicos no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, o tempo médio entre o início dos sintomas e a confirmação da endometriose, uma das principais causas de dor pélvica, é de sete anos. Para o ginecologista Ricardo de Almeida Quintairos, presidente da Comissão Nacional Especializada em Endometriose da Febrasgo, o problema é histórico. “Já na família, a menina vê a mãe suportar a dor e entende que também precisa passar por isso. Depois, vem a classe médica, que não trabalha para o diagnóstico precoce e não tem esmero em investigar a causa de uma dor”, destaca.
Estudo revela invisibilidade da dor nos registros médicos
Um estudo conduzido pelo Instituto Alana, em parceria com a Vital Strategies e a Prefeitura do Recife, mostra como a dor menstrual e pélvica permanece praticamente invisível nos registros oficiais das unidades de saúde. Ao analisarem os prontuários de mais de 469 mil meninas e mulheres entre 10 e 49 anos de idade atendidas na atenção primária da capital pernambucana entre 2016 e 2025, os pesquisadores verificaram que somente 0,5% das pacientes apareciam com histórico de dor quando considerado o código preenchido pelo médico seguindo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10).
Quando os pesquisadores revisaram os relatos escritos livremente pelos profissionais nos prontuários, por meio de uma metodologia baseada em análise semântica e inteligência artificial, o percentual aumentou para 8,7%. A discrepância, explica Sofia Reinach, líder da Iniciativa de Saúde Menstrual, Dor Pélvica e Endometriose do Instituto Alana, desmonta a ideia de que as mulheres simplesmente silenciam sobre o sofrimento. “O que esse dado mostra é que, na verdade, elas estão falando sobre a dor. A dor está nos registros, mas não está sendo reconhecida pelos profissionais como algo a ser registrado”, afirma.
Descrição insuficiente dos sintomas
A invisibilidade também aparece na forma como essa dor é descrita. O levantamento mostra que, mesmo quando mencionada nos prontuários, menos de 5% das ocorrências trazem informações sobre frequência, duração ou intensidade dos sintomas, três características consideradas fundamentais para qualquer investigação clínica. O estudo revela ainda que a hipótese diagnóstica muitas vezes chega ao consultório pela própria paciente, mas perde força ao longo da consulta. Cerca de 40,6% das menções à endometriose e à adenomiose aparecem no campo destinado ao relato da mulher. Já nos espaços em que o profissional define sua avaliação clínica e o plano terapêutico, essas referências diminuem consideravelmente.
Sofia Reinach afirma que isso não significa que o médico ignore completamente a suspeita. “O profissional leva em consideração e encaminha para um serviço especializado. O problema está no meio do caminho”. Ela diz que existem condutas recomendadas que poderiam ser adotadas ainda na atenção primária para aliviar a dor e iniciar o manejo clínico, mesmo antes da confirmação diagnóstica. “Tem uma lacuna no entendimento do profissional sobre o quanto ele pode fazer diferença nessa trajetória”, avalia.
Intensidade do problema é minimizada
Mesmo entre as mulheres com dores pélvicas que recebem algum diagnóstico, é comum que a intensidade do sintoma ou a gravidade da doença seja minimizada. A nutricionista Kaylane Cristine tinha 16 anos quando precisou ser internada após um quadro grave de hemorragia fora do período menstrual. Aos 22 anos, passou por uma cirurgia para tratar um quadro de endometriose. Até então, os médicos diziam que o problema era pequeno e que o útero dela estava saudável, mas, na operação, precisaram retirar focos da doença no intestino, ovários e canal retrovaginal, além de corrigir uma malformação uterina.
“Minha pelve estava amplamente comprometida. Além disso, recebi pela primeira vez o diagnóstico de uma malformação uterina e de cistos nas trompas uterinas, que também ajudavam a explicar meu fluxo menstrual intenso. Foram diagnósticos que nunca haviam sido mencionados. Descobrir toda essa extensão da doença foi um choque”, conta ela.
Dor durante inserção de DIU também é subestimada
A dificuldade em reconhecer a dor feminina pode acontecer também quando ela é causada por tratamentos que deveriam aliviar sintomas ginecológicos. Foi o que aconteceu com a jornalista Alice Lins, de 25 anos. Diagnosticada com Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP), ela decidiu colocar um DIU hormonal depois de receber a indicação médica de que o método poderia reduzir seu fluxo menstrual e melhorar os sintomas do quadro. Antes da inserção, porém, ouviu apenas que sentiria um leve desconforto. “Fui preparada para sentir dor, mas não fui preparada para sentir a pior dor da minha vida”, lembra.
Um estudo publicado no International Journal of Gynecology & Obstetrics mostra que o caso de Alice não é pontual. Ao analisarem 7.259 inserções de DIU realizadas entre 2022 e 2024 em um centro médico de Campinas, no interior de São Paulo, os pesquisadores constataram que 81% das pacientes classificaram a dor durante o procedimento como moderada ou intensa. O resultado contrasta diretamente com estimativas descritas em diretriz do Ministério da Saúde, que afirma que menos de 5% das mulheres podem sentir dor moderada ou intensa durante a inserção do dispositivo. Diante do cenário, os autores do estudo defendem que as recomendações precisam reconhecer a intensidade dessa experiência e incorporar estratégias efetivas para o controle da dor antes do procedimento.
Impactos na saúde mental e na carreira
De acordo com Quintairos, ter uma dor minimizada e não receber o diagnóstico e o tratamento adequados afetam não só o corpo como a saúde mental, a carreira e as relações. “Uma mulher com dor pélvica crônica tem menos amigos porque não consegue sair de casa. Ela namora menos, porque sente dor durante relações sexuais ou tem baixa autoestima. Tudo isso gera um quadro de distúrbio psíquico, ela fica depressiva e irritada”, diz o ginecologista.
Para Alice, a experiência deixou marcas além da dor física por um período prolongado. “Desenvolvi uma compulsão alimentar e um quadro depressivo. É triste saber que toda essa situação poderia ter sido evitada se os meus sentimentos fossem levados em consideração pelos profissionais que me atenderam.”
De acordo com um estudo da organização norte-americana Academy of Managed Care Pharmacy, uma mulher com endometriose perde, em média, seis horas de produtividade no trabalho por semana devido à doença. Para Quintairos, diante de todas as possíveis consequências da normalização da dor pélvica feminina, é fundamental que os profissionais de saúde e as pacientes estejam atentas aos sinais do corpo. “Quando a dor é progressiva, durante muitos dias do ciclo e não passa mesmo com remédios fortes, é preciso ligar o alerta”, ressalta.



