No outono passado, Gianni Infantino, presidente da Fifa, teve uma ideia. O Prêmio Nobel da Paz acabara de ser concedido à política venezuelana María Corina Machado. O presidente Donald Trump, que havia feito campanha abertamente pelo prêmio, ficou irritado. Infantino, que buscava aproximar Trump como aliado, enxergou uma oportunidade. Por que a Fifa, entidade que comanda o futebol internacional, não poderia ter seu próprio prêmio da paz? O primeiro homenageado: Trump, é claro.
O Prêmio da Paz da Fifa virou manchete porque levou a um novo patamar os esforços de Infantino para bajular e conquistar a simpatia de Trump. A premiação, montada às pressas, irritou muitos dirigentes do futebol, que disseram que ela constrangia a Fifa e dava à organização um tom partidário. Trump, por sua vez, chamou o prêmio de “verdadeiramente uma das grandes honrarias da minha vida”.
Além do prêmio: a transformação da Fifa sob Infantino
Embora gestos grandiosos como o Prêmio da Paz da Fifa tenham atraído atenção, eles acabam ofuscando uma história maior sobre como a Fifa vem se transformando sob o comando de Infantino. O presidente da entidade não está apenas indo longe para cultivar sua relação com Trump; ele também está tornando a organização mais parecida com Trump nesse processo.
A entidade que governa o futebol internacional deveria fechar contratos de licenciamento com hotéis para o uso do nome da Fifa? Sob Infantino, a Fifa está explorando exatamente isso, assim como a família Trump faz há muito tempo, apuramos. Deveria existir uma criptomoeda da Fifa? Infantino, que neste ano participou de uma cúpula sobre cripto em Mar-a-Lago, o resort do presidente na Flórida, também explorou essa possibilidade, assim como os Trump.
Mudança de sede e operação na órbita trumpista
A sede da Fifa fica em Zurique. Mas a organização abriu recentemente um reluzente hub norte-americano em Miami, onde Infantino mora — e ele vem operando muito dentro da órbita do presidente. A organização assumida por Infantino já enfrentava controvérsias antes de sua chegada. Quando ele se tornou presidente da Fifa, em 2016, a entidade ainda cambaleava por causa de um caso de corrupção apresentado pelo Departamento de Justiça dos EUA, que detalhava décadas de esquemas de propina e comissões ilícitas.
Na verdade, Infantino se propôs a reabilitar a reputação da Fifa, especialmente nos Estados Unidos — reformulando a imagem da entidade como uma organização estreitamente alinhada ao governo americano e não mais vista com desconfiança por suas autoridades. Mas, para isso, foi preciso se aproximar de uma administração marcada por seus próprios escândalos e abraçar a lógica transacional de Trump, que envolve tirar proveito de relações tanto para possível lucro quanto para ganho político.
Relação com Trump rende dividendos e preocupa
No primeiro mandato de Trump, Infantino elogiou o presidente durante seus processos de impeachment e mesmo com a queda nos índices de popularidade. O investimento compensou. O acesso de Infantino ao governo Trump tornou possível uma “visita de cortesia”, como descreveu um comunicado da Fifa, com a procuradora-geral dos EUA, que supervisionava os casos da Fifa. Infantino saiu do encontro dizendo estar “plenamente convencido” de que “a credibilidade e a reputação da Fifa estão sendo restauradas no mais alto nível”.
Em estilo tipicamente trumpiano, essa proximidade também gerou potenciais oportunidades de negócio. Sob o comando de Infantino, a Fifa discutiu com o então secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, um investimento em um serviço de streaming, segundo um alto funcionário da entidade. Nada se concretizou, mas apenas porque o projeto foi colocado em pausa, apuramos. Infantino também tentou cortejar o governo Biden. Mas integrantes da administração mantiveram distância, receosos de se aproximar demais de uma organização marcada por escândalos, disseram ex-integrantes do governo.
A relação com Trump passou a render dividendos ainda maiores desde sua volta à Casa Branca. Infantino apareceu em posição de destaque entre autoridades na posse de Trump no ano passado e acompanhou o presidente em viagens oficiais ao exterior — elevando o perfil da Fifa e o seu próprio.
Copa do Mundo como teste definitivo
A Copa do Mundo deste ano — organizada em conjunto por EUA, Canadá e México — pode ser o teste definitivo para saber se toda essa construção de relacionamento valeu a pena. Os apoiadores de Infantino dizem que ele está garantindo que um presidente volátil não atrapalhe o torneio. Um alto dirigente da Fifa afirmou acreditar que havia um entendimento informal de que as autoridades, por exemplo, não fariam ações de fiscalização imigratória do lado de fora dos estádios — algo negado por um porta-voz da entidade.
As controvérsias deste mês sobre a recusa dos EUA em permitir a entrada de um árbitro somali e os desafios logísticos enfrentados pela seleção iraniana ainda não ofuscaram o futebol, e mostram o quanto Trump poderia ser disruptivo se quisesse. “Acho absolutamente crucial, para o sucesso de uma Copa do Mundo, ter uma relação próxima com o presidente”, disse Infantino no ano passado.
Preocupações éticas e o legado da era Infantino
Mas a transformação da Fifa como resultado da relação entre Trump e Infantino pode perdurar de formas que sobreviverão ao torneio. A Fifa tem regras de neutralidade política. Muitos dirigentes do futebol expressaram preocupação com o fato de Infantino ter cruzado linhas éticas em sua relação com Trump. Alguns apresentaram denúncias formais à área de ética. A preocupação é que a era Infantino tenha substituído a corrupção desenfreada do período anterior por problemas de outra natureza.
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