A Polícia Civil investiga um golpe do falso emprego que vitimou mais de 200 pessoas em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. As vítimas relatam que uma mulher identificada como Aline Fernandes da Cunha oferecia vagas em um suposto projeto ligado ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas exigia uma taxa para garantir a contratação. Os pagamentos variavam e, em alguns casos, chegavam a R$ 2,5 mil por pessoa, feitos via Pix.
Projeto falso e promessas de emprego
De acordo com as denúncias, o projeto era apresentado como uma iniciativa chamada Inteligência Nacional de Auditoria, que atuaria na fiscalização do SUS. Em áudios obtidos pelo RJ1, Aline afirmava que o trabalho seria desenvolvido em parceria com a Secretaria de Saúde de Saquarema. “É um projeto que a gente está com a Secretaria de Saquarema para fiscalização do SUS. É quase uma auditoria. Nós estamos em 9 coordenações”, disse em uma das gravações.
Os interessados precisavam pagar para participar do processo. Em outra gravação, Aline cobrava rapidez no envio dos valores e da documentação. “Eu preciso fechar 8 vagas. Então, quem tiver pessoas de confiança, é naquele mesmo esquema, dinheiro na mão, imediatamente. Manda o dinheiro, manda o comprovante com visualização única, manda a documentação logo”, afirmou.
Confiança conquistada por proximidade
Segundo os relatos, a confiança dos candidatos foi conquistada porque Aline era conhecida de familiares e amigos de parte das vítimas. Uma das pessoas que registraram queixa afirmou que conhecia Aline havia 5 anos. “Aline era uma pessoa muito próxima de mim, por ter estado no seio familiar por muitos anos. Então, em nenhum momento houve qualquer questionamento”, disse.
A mesma vítima contou que Aline afirmava ter participado de reuniões com autoridades. “Ela: ‘Confia em mim, tô trazendo pra você, eu tô te afirmando, eu estive lá, eu estive com a prefeita, eu estive na reunião junto com o Ministério da Saúde’”, narrou.
Promessa de mudança de vida
Os relatos apontam que as vagas ofereciam salário de R$ 5,5 mil, além de benefícios. Uma candidata afirmou que viu na proposta uma oportunidade de recomeço. “A Aline chegou até a mim através de uma amiga, aí ela me explicou como era todo o projeto. O trabalho seria em home-office, e a gente ainda teria ajuda de custo. Eu vi que era uma oportunidade de mudança de vida, eu estava desempregada”, contou.
Segundo as vítimas, quando surgiam dúvidas ou pedidos de devolução dos valores pagos, novas promessas eram feitas para evitar desistências. “Sempre que eu pensava: 'Não, vou pegar meu dinheiro de volta, vou tentar pegar meu dinheiro de volta’, Aline vinha e falava: ‘Não, mas aí você lembra que você vai ter tempo, vai ter dinheiro’. Eu deveria ter visto essa questão”, disse outra vítima.
Pagamentos e envolvimento de Márcio
Embora parte das transferências tenha sido feita para contas ligadas a Aline, os denunciantes afirmam que a maioria dos pagamentos foi destinada a Márcio de Oliveira Castro. Segundo os relatos, Márcio se apresentava como futuro subsecretário de Saúde de Saquarema e responsável pelo projeto. “O piloto do projeto era o Márcio, que seria nomeado na Prefeitura de Saquarema. Mas a gente soube que não houve nomeação nenhuma, que nada existiu”, afirmou Luciane Dias, uma das vítimas.
Defesa de Aline
O advogado de Aline Fernandes da Cunha, Diogo Simas, afirmou que a cliente também foi enganada e acreditava que o projeto era verdadeiro. “Ela é vítima de um engano. Aline é psicóloga, tem uma carreira sólida, sempre ajudou o próximo. Nessa situação, ela de fato, acreditou que era um projeto sério”, disse. Segundo ele, a cliente recebeu documentos e informações que davam aparência de legalidade à iniciativa. “Ela confiou num amigo. Tinha planilha, organogramas, havia telefonemas, ela acreditou nessa situação tanto que ela fez investimentos próprios.” O RJ1 tentou contato com Márcio por telefone, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.
O que dizem as autoridades
A Prefeitura de Saquarema informou que o projeto Inteligência Nacional de Auditoria não existe. Em nota, a administração municipal afirmou que não há qualquer cobrança para ingresso em cargos comissionados e que Aline Fernandes da Cunha e Márcio de Oliveira Castro nunca integraram o quadro de servidores ou colaboradores do município.
A Polícia Civil informou que, desde o início deste ano, foram registrados diversos boletins de ocorrência contra Aline e Márcio em diferentes delegacias de Saquarema. As denúncias estão sendo investigadas.



