O editorial sob o sugestivo título A falsa paz (Estadão, 29/5, A3) oferece uma análise rigorosa sobre as fragilidades do eventual acordo entre Estados Unidos e Irã. Seu argumento central é pertinente: uma trégua construída sobre ambiguidade nuclear não é paz, mas um reposicionamento das peças para uma crise futura mais perigosa.
Uma dimensão ausente na equação diplomática
Há, contudo, uma dimensão ausente dessa equação, algo que não é acidental. É sintomática de um hábito diplomático ocidental de tratar Israel como variável dependente, jamais como protagonista legítimo da arquitetura de segurança regional. Esse hábito tem um custo. E o momento exige corrigi-lo.
O que está em jogo para Israel?
Nenhum país no mundo tem interesse mais direto, imediato e existencial no programa nuclear iraniano do que Israel. Não se trata de retórica. A liderança iraniana reitera há anos a negação do direito de existência do Estado de Israel. O financiamento de grupos como o Hezbollah, Hamas e milícias no Iraque e na Síria compõe um projeto de cerco estratégico. Um Irã com capacidade nuclear, mesmo latente ou “gerenciada” por moratórias e protocolos de verificação, representa para Israel não uma ameaça abstrata, mas uma mudança estrutural no balanço de poder que nenhum governo israelense, de qualquer matiz político, pode simplesmente absorver.
A doutrina Begin, formulada após o bombardeio ao reator iraquiano Osirak, em 1981, e reafirmada com a destruição do reator sírio, em 2007, é clara: Israel não permitirá que nenhum declarado adversário regional alcance capacidade nuclear. Essa não é uma postura negociável em Genebra ou Doha.
Assimetria de percepção e soluções incompatíveis
O debate ocidental sobre o Irã frequentemente enquadra o conflito como um problema de não proliferação, estabilidade energética, regimes políticos, rotas marítimas ou preço do petróleo. São preocupações legítimas. Mas operam numa escala de tempo e de risco radicalmente diferente do cálculo israelense. Para Washington ou Bruxelas, um Irã com urânio enriquecido a 60% é um problema geopolítico sério. Para Jerusalém, é uma ameaça à continuidade nacional.
Essa assimetria de percepção produz soluções incompatíveis. Um acordo que seja “bom o suficiente” para o Departamento de Estado dos EUA pode ser inaceitável para qualquer governo israelense, não por intransigência, mas por lógica de sobrevivência. Ignorar essa assimetria não a elimina. Apenas a desloca para o momento em que Israel decidir agir unilateralmente, como já fez antes e como sua doutrina estratégica autoriza.
Garantias concretas: o ponto central
O editorial desta publicação conclui com uma proposição clara: “Encerrar a guerra pode ser necessário. Encerrá-la preservando a possibilidade de um Irã nuclear seria outra coisa”. É uma conclusão com a qual se pode concordar plenamente. Mas ela permanece incompleta enquanto não responder à pergunta: quais garantias concretas de segurança serão oferecidas a Israel como parte de qualquer arranjo? Essa questão não é periférica. É central.
Qualquer arquitetura de paz duradoura no Oriente Médio precisará incorporar três elementos mínimos:
- Primeiro: mecanismos de verificação com acesso irrestrito a instalações iranianas, incluindo as subterrâneas, com consequências automáticas e não negociáveis em caso de violação. O histórico de acordos anteriores, especialmente o Joint Comprehensive Plan of Action (JCPOA) de 2015, demonstra que a ambiguidade nos protocolos de verificação não constrói confiança.
- Segundo: um compromisso explícito das potências signatárias em relação à segurança de Israel. Não como gesto simbólico, mas como cláusula operacional.
- Terceiro: a inclusão de Israel, direta ou indiretamente, nas negociações ou, ao menos, em consultas substantivas que garantam que seus interesses de segurança sejam considerados, e não apenas comunicados após o fato consumado.
Nenhum desses elementos está hoje no horizonte visível das negociações em curso.
O equívoco de excluir Israel
Há uma tradição diplomática que trata a inclusão de Israel nas conversas sobre a região como um complicador, como se suas demandas tornassem o acordo mais difícil de alcançar. Essa tradição é compreensível, mas estrategicamente equivocada. Um acordo que não incorpore as legítimas necessidades de segurança israelenses não resolve o conflito regional: o adia. E o adia em condições potencialmente mais perigosas, porque um Irã com capacidade nuclear latente e um Israel excluído do processo diplomático é uma combinação volátil.
A paz no Oriente Médio não será construída contornando Israel, mas integrando suas demandas de segurança numa arquitetura regional. Isso exige reconhecer, sem eufemismos, que o Estado israelense tem o direito de existir, defender-se e ser tratado como interlocutor legítimo, e não como obstáculo incômodo. A “falsa paz” de que fala o editorial desta publicação é falsa, em parte, precisamente porque foi concebida sem essa variável. Corrigi-la não é apenas um imperativo moral. É uma necessidade estratégica.



