Os aliados árabes dos Estados Unidos no Golfo estão cada vez mais frustrados à medida que as hostilidades entre EUA e Irã se intensificam, colocando em risco sua segurança nacional e suas economias. A irritação dos países do Golfo é evidenciada por suas visões amplas e divergentes sobre o que os EUA deveriam fazer em seguida.
Divergências entre os aliados
Algumas autoridades acreditam que o presidente Donald Trump deveria ampliar as operações militares com o envio de tropas terrestres a partes do Irã e talvez até tomar a estratégica ilha de Kharg, principal polo de exportação de petróleo do país, segundo pessoas familiarizadas com o tema, que pediram anonimato por tratarem de assuntos sensíveis. Essas autoridades avaliam que os líderes iranianos não vão recuar nem abrir mão de seu controle sobre o Estreito de Ormuz a menos que os EUA adotem uma ação mais agressiva, disseram essas fontes. A alternativa seria um conflito prolongado, ainda que de baixa intensidade, que poderia durar meses, segundo uma delas, afastando investidores estrangeiros e turistas da região.
Na visão de muitas autoridades, os EUA precisam “escalar para desescalar”, disse David Schenker, diplomata americano para o Oriente Médio no primeiro mandato de Trump e hoje pesquisador do Washington Institute for Near East Policy. “Algo mais precisa ser feito, porque a dinâmica atual não obrigará o Irã a fazer qualquer concessão, seja sobre o estreito, seja na frente nuclear.” Uma autoridade americana afirmou que Trump mantém relações extraordinárias com os líderes da região e que o governo tem mantido contato regular com os países do Golfo desde o início da guerra. Segundo essa autoridade, que também pediu anonimato por se tratar de deliberações privadas, os ataques do Irã contra seus vizinhos no Golfo mostram que Teerã age de forma imprudente e não pode ter permissão para possuir uma arma nuclear.
Trump sinaliza continuidade do conflito
Nesta terça-feira (21), Trump deu a entender que o conflito no Oriente Médio pode não terminar tão cedo. “Se saíssemos amanhã, teríamos tido um grande, um grande sucesso”, disse a jornalistas durante encontro com o presidente do Líbano. “Mas não vamos sair amanhã.”
Alguns países, entre eles o Catar — principal mediador do conflito ao lado do Paquistão — discordam da necessidade de expandir as operações militares e querem uma desescalada imediata, disseram as fontes. O objetivo é evitar que os confrontos voltem ao nível de março e do começo de abril, quando EUA e Israel bombardearam cidades iranianas e Teerã disparou milhares de drones e mísseis através do Golfo.
Isso marca uma mudança em relação às semanas que antecederam um acordo provisório entre EUA e Irã em meados de junho, quando os Estados árabes do Golfo estavam em grande parte unidos ao defender que Trump recorresse à diplomacia e reduzisse a tensão com Teerã. Essa unidade se desfez à medida que as hostilidades pioraram nas últimas duas semanas, com Irã e EUA culpando um ao outro pelo colapso do chamado memorando de entendimento que haviam assinado.
Impactos diretos nos países do Golfo
Kuwait e Bahrein sofreram fortes ataques iranianos, assim como a Jordânia. As usinas de água e energia do Kuwait foram atingidas por mísseis e drones, e voos têm sido frequentemente suspensos. Arábia Saudita, Catar e Emirados Árabes Unidos viram navios-tanque de energia serem atacados nas proximidades do Estreito de Ormuz, enquanto o Irã também abriu fogo contra Omã e Iraque.
A guerra, que as ricas monarquias do Conselho de Cooperação do Golfo haviam pedido a Washington que não iniciasse, levou esses países a questionar a capacidade dos EUA de proteger seus aliados. Como resultado, alguns agora buscam aprofundar os laços de defesa com países europeus, disseram as fontes, também sob condição de anonimato.
Opções limitadas para Trump
Trump parece cada vez mais frustrado com os líderes iranianos, especialmente depois que três soldados americanos foram mortos na última semana na Jordânia e no Iraque, e um quarto está desaparecido. O Irã se recusou a interromper os ataques contra navios que atravessam Ormuz, apesar das ameaças de Washington de intensificar os bombardeios aéreos até que isso aconteça.
O presidente dos EUA não tem opções fáceis. Qualquer movimento para enviar tropas ou tentar conquistar a ilha de Kharg provavelmente provocaria ataques retaliatórios ainda mais severos por parte do Irã, além de elevar ainda mais os preços do petróleo. Também exporia centenas, possivelmente milhares, de soldados americanos a ataques iranianos a curta distância, difíceis de interceptar.
Frustração crescente com o Irã
A irritação dos países do Golfo com o Irã cresce à medida que o tráfego pelo estreito estratégico — por onde escoava a maior parte de seu petróleo antes da guerra — volta a despencar. Muitas autoridades da região duvidam que a hidrovia seja totalmente reaberta em breve, afirmou outra fonte, que também pediu para não ser identificada sem autorização para falar publicamente.
“As pessoas estão frustradas, irritadas”, disse Michael Ratney, ex-embaixador dos EUA na Arábia Saudita. “Mas não dizem muito publicamente porque todos estão tentando administrar sua relação com Trump. Eles querem que seu petróleo volte a fluir, que suas economias voltem ao normal. Isso agora é angustiante para eles.”
Os Emirados Árabes Unidos têm sido um dos países do CCG mais vocais na defesa da manutenção da navegação aberta no estreito. O país, assim como Arábia Saudita e Kuwait, continuou enviando petroleiros pela região apesar das ameaças do Irã, embora frequentemente com os sinais de satélite desligados para evitar detecção.
Abu Dhabi quer que os países europeus sejam mais proativos e iniciem uma missão de desminagem, que já disseram que começarão assim que houver segurança para isso, segundo uma fonte com conhecimento do assunto. Autoridades dos Emirados conversaram com seus pares na Europa sobre isso na última semana, disse essa pessoa.
Em comunicado de 18 de julho, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados pediu uma “interrupção imediata da escalada e que se evite agravar as tensões e a instabilidade na região”. Acrescentou que deve haver um “rápido retorno às negociações” e ressaltou a “importância de garantir uma navegação segura e ininterrupta pelo Estreito de Ormuz”.
Planos econômicos ameaçados
A guerra lançou incertezas sobre o futuro dos negócios no curto prazo em uma região que, nas últimas cinco décadas, usou as exportações de petróleo para se tornar uma das mais ricas do mundo. As principais potências econômicas — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar — vêm diversificando suas economias para áreas como inteligência artificial, hedge funds e turismo, e enxergam a estabilidade regional como crucial para esse objetivo.
O conflito e o fechamento de fato de Ormuz já afetaram suas economias, forçando a interrupção de muitas exportações e fazendo disparar seus déficits fiscais. Embora os líderes do Golfo tenham, em grande parte, recebido bem o memorando de entendimento assinado no mês passado, eles se preocupavam com a possibilidade de o acordo proporcionar enormes ganhos financeiros ao Irã, na forma de alívio de sanções, liberação de recursos congelados e criação de um fundo de reabilitação de US$ 300 bilhões. Nenhum dos seis países do Conselho de Cooperação do Golfo planeja, até o momento, contribuir para esse fundo, disseram algumas das fontes.
Autoridades do Golfo reagiram mal à sugestão de que deveriam, na prática, pagar reparações à República Islâmica, quando seus próprios países sofreram tantos danos com ataques iranianos. As nações do Golfo “estão frustradas, mas sem poder para impedir qualquer um dos dois beligerantes”, disse Ali Vaez, diretor do Projeto Irã no International Crisis Group.



