Na madrugada de 11 de junho, agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) encontraram 43 pessoas caminhando pelo acostamento da BR-401, em Cantá, a 10 km de Boa Vista. Eram cubanos que haviam entrado no Brasil horas antes pela fronteira com a Guiana, após dias de viagem desde Cuba. "São pessoas que estão chegando aqui em situação bem degradante, alguns sem se alimentar, comendo só biscoito e com doenças respiratórias e gastrointestinais", relata Isaias Magalhães, chefe de comunicação da PRF em Roraima.
Números recordes de pedidos de refúgio
O grupo se somou aos 13 mil cubanos que solicitaram refúgio no Brasil em 2026, segundo dados do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra), do Ministério da Justiça em parceria com a UnB. Nos registros de entrada regular da Polícia Federal, 6 mil cubanos ingressaram no país no mesmo período. A diferença entre os 13 mil pedidos e as 6 mil entradas regulares indica crescimento de rotas irregulares, segundo pesquisadores e organizações de acolhimento em Roraima.
Em 2025, os cubanos já haviam superado os venezuelanos como a nacionalidade com mais pedidos de refúgio no Brasil: foram 42 mil solicitações cubanas contra 22 mil venezuelanas.
A rota clandestina pela Guiana
A Guiana não exige visto de cubanos, permitindo que voem de Havana a Georgetown. De lá, seguem por estrada até Lethem, na fronteira com o Brasil, em viagem de até 20 horas. Atravessam o rio Tacutu com coiotes de forma irregular, entrando no Brasil em carros superlotados até Boa Vista, onde pedem refúgio. "Essas rotas expõem as pessoas a diferentes riscos de proteção, como condições inseguras de transporte, endividamento e situações de exploração", explica Thaisa Freitas, coordenadora do Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados em Roraima.
Por lei, o estrangeiro pode solicitar refúgio a qualquer autoridade migratória na fronteira, sem necessidade de travessia clandestina. No entanto, muitos cubanos são levados a acreditar que precisam de atravessadores, pagando valores superiores a 10 mil dólares (R$ 51,4 mil) desde a saída de Cuba. "Eu entendo que as informações que circulam em Cuba são muito reduzidas, mas eu não consigo entender como não repassam entre eles que não é necessário passar por esses grupos de contrabando e tráfico de pessoas", diz a professora Marcia Maria de Oliveira, da Universidade Federal de Roraima (UFRR).
Crise em Cuba e restrições nos EUA impulsionam fluxo
O aumento da chegada de cubanos ao Brasil coincide com medidas restritivas na fronteira dos EUA desde o retorno de Donald Trump em 2025 e o fechamento do corredor migratório pela Nicarágua, que em 8 de fevereiro de 2026 encerrou a entrada sem visto para cubanos sob pressão americana. A Nicarágua havia eliminado a exigência de visto em 2021, permitindo que milhares voassem para Manágua e seguissem por terra rumo aos EUA.
Além disso, Cuba enfrenta grave crise econômica, com colapso das usinas termelétricas e apagões diários. O embargo americano se intensificou, e a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2026 cortou o principal fornecedor de petróleo da ilha. Trump ameaçou tarifas a países que enviarem petróleo a Cuba. Furacões frequentes agravam a situação. "Além de você não ter condições para manter a luz noite e dia, você ainda tem a destruição de toda a infraestrutura", afirma Oliveira.
A saga de uma família cubana
Evelio Vazques, 45 anos, psicólogo, decidiu vir ao Brasil com a esposa e três filhos (17, 6 e 4 anos, os dois mais novos autistas) após vender tudo e pedir ajuda a parentes nos EUA. Pagou 1.250 dólares (R$ 6,4 mil) por uma van de Georgetown a Lethem — cinco vezes o preço cobrado de outras nacionalidades — e mais 180 dólares (R$ 925) ao coiote para cruzar o rio Tacutu. "Nós cubanos somos programados para acreditar que o que está na lei não funciona", diz Evelio, que temia não conseguir cruzar a fronteira legalmente.
Em Boa Vista, a família dormiu em redes penduradas em árvores até alugar uma casa comunitária. Evelio fez bicos como jardineiro e pedreiro, e em 10 dias alugou uma casa. Agradece o tratamento das instituições brasileiras, mas lamenta que a Operação Acolhida, criada para venezuelanos, não tenha sido adaptada para cubanos. O Ministério da Justiça informou que "implementa a Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia", sem detalhar ações específicas para cubanos.
Evelio fundou a "Asociación de Comunidades Cubanas en la República Federativa de Brasil" para organizar a comunidade e fornecer informações corretas. "Queremos ser úteis com nossas profissões, nossa força de trabalho, porque queremos ajudar o Brasil, país que está nos acolhendo", afirma.
Brasil como passagem para outros destinos
Segundo a pesquisadora Marcia Maria de Oliveira, menos da metade dos cubanos que chegam a Boa Vista pretende ficar no Brasil. A maioria segue para Argentina, Uruguai ou América do Norte. Dados da PF indicam que, em 2025, 21 mil cubanos entraram legalmente no Brasil e 5,4 mil saíram pela fronteira de Santana do Livramento (RS) com o Uruguai. Muitos planejam pedir reassentamento no Canadá após três meses de refúgio no Brasil. "Muitas dessas agências de Cuba, quando elas vendem o pacote, elas já vendem para o Canadá", relata Oliveira. O Ministério da Justiça afirma que "atua para preservar a finalidade do instituto do refúgio".



