Mísseis balísticos: entenda por que eles preocupam a Europa
Mísseis balísticos: por que preocupam a Europa

A Europa vive seu momento de maior reflexão sobre sua doutrina militar e de defesa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. De um lado, o continente vê a Rússia promover uma guerra de agressão contra a Ucrânia. Do outro, o presidente de seu maior aliado, os EUA, age de maneira intempestiva, ameaçando anexar a Groenlândia e minar a Otan — aliança militar formada na Guerra Fria entre americanos e europeus.

Alerta com mísseis balísticos

O capítulo mais recente é o anúncio de uma coalizão para proteger a Europa de mísseis balísticos, anunciada pelo presidente francês, Emmanuel Macron, ao lado do ucraniano Volodymyr Zelensky. No último dia 6, um sinal de alerta acendeu em todo o continente, quando a Rússia lançou 23 mísseis balísticos, e as defesas ucranianas não conseguiram derrubar nenhum deles. Zelensky reagiu pedindo mais sistemas antimísseis Patriot, fabricados pelos EUA, um dos poucos capazes de abater os mísseis hipersônicos russos Oreshnik.

O que são mísseis balísticos

Mísseis balísticos funcionam de modo semelhante a uma bala ou um foguete: eles são lançados a grandes altitudes — centenas de quilômetros do nível do mar, a depender da distância do alvo. Sem a resistência do ar, os projéteis podem atingir velocidades altíssimas, dez ou vinte vezes mais rápidas que a velocidade do som (12 mil km/h a 24 mil km/h). Alguns projéteis chegam a 30 mil km/h. Os mísseis desaceleram em sua descida, que às vezes dura menos de um minuto, mas podem atingir o alvo a uma velocidade de 3.200 km/h.

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Outros mísseis, de cruzeiro, usam uma estratégia diferente: muitas vezes eles voam baixo, a metros do chão, fora do alcance dos radares aéreos, e podem ser guiados de forma remota para o alvo. Embora ambos apresentem dificuldades para serem abatidos por sistemas de defesa, os mísseis balísticos são mais difíceis, em geral, de serem interceptados, pela altíssima velocidade na fase final do voo.

Como os mísseis balísticos voam muito alto, eles deixam uma assinatura no radar facilmente identificável na maior parte dos lançamentos. Isso não significa uma facilidade maior para que eles sejam abatidos. "Para evitar danos colaterais ou prejuízos decorrentes de uma interceptação malsucedida, o míssil deve ser interceptado a grande distância de seu alvo", diz um artigo do Instituto para Estudos de Segurança Nacional de Israel. "Isso exige sistemas de detecção de alta sensibilidade, capazes de identificar a chama e a pluma de fumaça do míssil durante o lançamento; sistemas de rastreamento de trajetória de alta precisão; sistemas integrados de comando e controle com capacidade de processamento de dados e cálculos em alta velocidade; e, naturalmente, um míssil interceptador veloz. Para evitar surpresas, o rastreamento deve ser contínuo", conclui o texto.

Novas tecnologias para driblar defesas

Ultimamente, novas tecnologias têm sido incorporadas aos mísseis balísticos para driblar os sistemas de interceptação, como o Patriot. As estratégias mais comuns são:

  • Mísseis "cluster": ogivas que, na fase terminal de voo, se subdividem em várias ogivas menores, fazendo com que os sistemas de defesa precisem lidar com vários projéteis ao mesmo tempo.
  • Realização de manobras pré-programadas, percorrendo trajetórias imprevisíveis antes de se dirigir ao alvo.
  • Realização da fase final de voo em velocidades maiores, deixando menos tempo de reação para a interceptação.
  • Uso de tecnologias "stealth", ou furtivas, semelhantes às usadas nos aviões de combate, que dificultam a detecção dos artefatos pelos radares.

Mísseis Oreshnik e o sistema Patriot

Em janeiro, a Rússia começou a usar com frequência seus mísseis balísticos hipersônicos Oreshnik. Essa classe de mísseis tem alcance intermediário (pode atingir alvos a até 5.500 km de distância) e é capaz de atingir velocidades de até 13 mil km/h. Isso permitiria alcançar grande parte da Europa a partir do território russo ou de Belarus, onde unidades do sistema já foram instaladas.

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A Europa já forneceu para a Ucrânia diversos sistemas de defesa antiaérea contra mísseis de cruzeiro. Contra mísseis balísticos, porém, Kiev tem contado principalmente com o sistema americano Patriot, o mais avançado do mundo atualmente. O Patriot (Phased Array Tracking Radar for Intercept on Target) é um sistema móvel de mísseis terra-ar desenvolvido pela Raytheon Technologies. É considerado um dos sistemas de defesa aérea mais avançados do arsenal dos EUA e está em operação desde a década de 1980, com diversas atualizações.

Os Patriot são enviados pelos EUA à Ucrânia desde julho de 2025, mas a Força Aérea Ucrânia sofre atualmente uma grave escassez desses interceptadores — falha que Moscou tem explorado com frequência na guerra. Na semana passada, durante a cúpula da Otan, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que pretende conceder à Ucrânia uma licença para produzir de forma independente mísseis para o sistema Patriot. Embora o equipamento seja fundamental, especialistas e autoridades ucranianas alertam que transformar a ideia em realidade provavelmente levaria anos, já que seria necessário instalar a tecnologia e adaptar o parque industrial do país antes que o primeiro sistema Patriot saísse da fábrica.

Dependência europeia e coalizão

A Europa tem desenvolvido seus próprios sistemas de defesa antimísseis balísticos, como os projetos concorrentes HYDIS e EU HYDEF, mas o continente segue dependente dos mísseis Patriot de maneira geral. Essas iniciativas já vêm sendo desenvolvidas há cerca de três anos e não têm relação direta com o afastamento gradual do continente em relação aos EUA, que tem se desenhado após a volta de Donald Trump à Casa Branca e às repetidas investidas do republicano contra a Otan, como suas ameaças de anexar a Groenlândia.

A coalizão europeia lançada na última semana afirmou que seu objetivo é "construir uma capacidade de defesa compartilhada contra mísseis balísticos". “Acreditamos que proteger a Europa exige uma solução abrangente, sob a forma de uma arquitetura integrada de defesa antimísseis, para dissuadir e neutralizar futuras ameaças”, afirmou o comunicado. Num primeiro momento, a coalizão é formada por Dinamarca, França, Alemanha, Itália, Holanda, Noruega, Espanha, Suécia, Reino Unido e Ucrânia. Ainda não há um cronograma para a criação do sistema de defesa, e o plano continua aberto a outros países.

O presidente russo, Vladimir Putin, tem se mostrado inflexível, prometendo na segunda uma retaliação enfática aos recentes ataques de longo alcance de Kiev contra refinarias, petroleiros e terminais, que causaram uma escassez generalizada de combustível no país.