O desenho animado russo "Masha e o Urso", um dos mais assistidos do mundo, tornou-se um personagem inusitado da guerra entre a Rússia e a Ucrânia. A série foi incluída em um guia de cancelamento cultural elaborado por autoridades ucranianas, que recomendam a retirada de produções russas das plataformas de mídia do país. A decisão, vista como um esforço para desmilitarizar a informação, coloca um dos produtos culturais mais amados do leste europeu no centro da disputa ideológica.
O fenômeno "Masha e o Urso" começou em 2009, criado pela estúdio russo Animaccord. A trama, que acompanha as aventuras de uma menina travessa e seu amigo urso, conquistou audiências globais, sendo traduzida para dezenas de idiomas e transmitida em mais de 100 países. No YouTube, o episódio "Masha e o Urso: A Primeira Vez" ultrapassou 5 bilhões de visualizações, um recorde para conteúdo infantil. Esse alcance fez da série uma vitrine cultural da Rússia. Além do YouTube, a série acumula presença em serviços de streaming e TV aberta. A animação foi criada por Oleg Kuzovkov e produzida pelo estúdio Animaccord, sediado em Moscou. O sucesso se deve, em parte, ao carisma da personagem Masha, uma garota de cinco anos que vive aventuras com um urso aposentado. O formato de curta-metragens e a ausência de diálogos complexos permitiram adaptações culturais em diversos países.
A lista ucraniana e o cancelamento
Em fevereiro de 2022, logo após a invasão russa, o Conselho Nacional de Televisão e Rádio da Ucrânia divulgou uma lista de conteúdos russos recomendados para remoção do espaço de mídia ucraniano. A medida, prevista na legislação de segurança nacional, abrangeu canais de TV, filmes e séries, incluindo "Masha e o Urso". Segundo o órgão, a presença de qualquer produto de origem russa pode ser interpretada como apoio implícito à agressão. Embora o guia de cancelamento não tenha força de lei imediata, emissoras ucranianas aderiram voluntariamente à recomendação. O Conselho Nacional também pediu que provedores de internet bloqueassem o acesso a portais russos, ampliando o escopo da medida.
A inclusão do desenho gerou controvérsia. Diferente de outras produções, "Masha e o Urso" não contém discurso político ou militar. A história é centrada na amizade entre uma criança e um animal, com apelo universal. No entanto, para o governo ucraniano, o simples fato de a série ser russa a torna suscetível a ser usada como ferramenta de propaganda. Assim, o "guia de cancelamento" passou a incluir o desenho em sua cartilha.
Reação russa e apropriação simbólica
Na Rússia, a notícia foi recebida com deboche e indignação. Porta-vozes do governo classificaram a medida como "cancelamento da cultura russa" e promoveram Masha como símbolo da resistência cultural. Em 2022, circularam imagens de veículos militares russos com pinturas do urso, supostamente inspiradas na personagem, além de memes que usavam a menina para rebater críticas ocidentais.
Especialistas apontam que a guerra de informação transformou o desenho em um ícone ambivalente. Enquanto a Ucrânia tenta apagar a presença russa do seu cotidiano, a Rússia usa a popularidade de Masha para reforçar narrativas de que o Ocidente tenta destruir sua identidade. O caso é frequentemente citado em estudos sobre como o entretenimento é recrutado em conflitos modernos, evidenciando a complexidade da chamada guerra híbrida.
Impacto na distribuição global
Apesar do cancelamento na Ucrânia, "Masha e o Urso" continua a ser exibido em grande parte do mundo. A plataforma Netflix, por exemplo, removeu o conteúdo do seu catálogo na Ucrânia, mas mantém a série em outras regiões, incluindo América Latina, onde é popular. Download digital e DVDs também seguem vendidos em mercados internacionais, o que indica que a guerra não interrompeu o alcance comercial da franquia.
Para os fãs, a situação é confusa. Muitos pais ucranianos, habituados a assistir ao desenho com os filhos, se veem obrigados a buscar alternativas. Enquanto isso, a Rússia lançou novos episódios e expandiu o licenciamento para países aliados, como Índia e China, aproveitando o vácuo deixado pelo bloqueio ocidental ao seu cinema e TV.
Reações de fãs e educadores
Educadores e pais em vários países defenderam a permanência do desenho no ar, argumentando que o boicote penaliza o público infantil. Em escolas ucranianas, professores relataram que crianças pedem para assistir aos episódios mesmo após o bloqueio. Essas reações ilustram o dilema entre sanções culturais e a autonomia do consumidor.
No campo diplomático, a Ucrânia também levou o caso a organizações internacionais, buscando apoio para sua política de rejeição a produtos russos. A Rússia, por sua vez, anunciou que vai financiar a dublagem de "Masha e o Urso" em novos idiomas, reforçando a rede de influência global da série.
O que isso ensina sobre a guerra híbrida
O caso de "Masha e o Urso" revela como produtos culturais são recrutados em conflitos modernos. A guerra de narrativas não se limita a notícias e declarações oficiais; ela invade também o entretenimento infantil. A decisão ucraniana, embora controversa, reflete uma tentativa de proteger a soberania cultural, enquanto a Rússia transforma a rejeição em propaganda.
Analistas de política externa destacam que o boicote a símbolos russos, ainda que simbólico, contribui para isolar Moscou no cenário internacional. No entanto, a eficácia dessa estratégia é discutível: o desenho animado continua a circular ilegalmente na Ucrânia, via redes sociais, e a demanda por conteúdo russo persistiu após o início da guerra. Isso demonstra a complexidade em separar cultura e política.
A história de "Masha e o Urso" na guerra, portanto, é um lembrete de que nenhum produto está imune à politização. A simpática menina e seu amigo urso se tornaram, ainda que involuntariamente, embaixadores de um conflito que ultrapassa fronteiras e gerações.



