A guerra no Irã entrou em uma nova fase, com os Estados Unidos retomando bombardeios, restabelecendo o bloqueio naval e anunciando a cobrança de uma taxa de 20% sobre as cargas que atravessam o Estreito de Ormuz. Em resposta, o Irã atacou bases e interesses americanos na Jordânia e no Bahrein, além de embarcações ligadas aos Emirados Árabes Unidos. Mais do que o fracasso de um cessar-fogo, o que se desenha agora é uma tentativa arriscada e duvidosa de produzir estabilidade pela via da escalada.
Acordo frágil desde o início
O acordo firmado em junho já trazia em si as razões de sua fragilidade. Apresentado como um passo rumo à paz, tratava-se, na realidade, de um memorando provisório para suspender as hostilidades por 60 dias. Tentava, ao mesmo tempo, reabrir Ormuz, suspender o bloqueio americano, conter a guerra no Líbano, aliviar economicamente o Irã e abrir caminho para uma negociação sobre seu programa nuclear.
Problemas de naturezas distintas foram reunidos num mesmo texto, sem que se estabelecesse com clareza a ordem de prioridades, as garantias de cumprimento e as consequências de um eventual descumprimento.
Ambiguidade levou a interpretações divergentes
A ambiguidade do texto permitiu que cada parte nele enxergasse algo diferente. Washington entendia que a trégua deveria assegurar a livre navegação em Ormuz e preservar a pressão necessária para arrancar concessões nucleares; Teerã, por sua vez, esperava dela o reconhecimento de algum papel iraniano na administração do estreito, a liberação de ativos congelados e o início do levantamento das sanções. A participação indireta de Israel e dos grupos armados apoiados pelo Irã tornava ainda mais difícil precisar quais condutas configurariam, de fato, violação do entendimento.
O acordo não se sustentou porque adiou as divergências centrais sem criar qualquer mecanismo capaz de administrá-las. Ataques contra navios, restrições econômicas americanas e acusações mútuas em torno das operações israelenses no Líbano produziram uma sucessão de violações e contraviolações, até que a trégua deixasse de conter a disputa para apenas deslocá-la: converteu-se na interpretação de um texto vago o bastante para que cada lado atribuísse ao outro a responsabilidade por seu colapso.
Lógica da estabilidade por escalada
A resposta, agora, é elevar os custos. Os Estados Unidos buscam demonstrar capacidade de destruir ativos militares iranianos, proteger a navegação e controlar o acesso ao estreito; o Irã amplia geograficamente a retaliação para mostrar que uma guerra contra seu território custará caro às bases americanas, aos aliados regionais e ao próprio comércio internacional. Cada lado aposta em convencer o outro de que prosseguir no conflito sairá mais caro do que fechar um novo acordo.
É essa a lógica da estabilidade por escalada: quando a acomodação provisória perde credibilidade, os adversários buscam fixar limites mais claros pela força. A violência, aqui, cumpre menos a função de causar dano do que a de comunicar determinação.
Taxa de 20% em Ormuz contradiz posição americana
Ormuz, mais uma vez, tornou-se o centro dessa disputa, e a proposta americana de cobrar 20% para assegurar a passagem é particularmente reveladora. Durante semanas, Washington sustentou, corretamente, que nenhum Estado pode condicionar a passagem por um estreito internacional ao pagamento de pedágio. A liberdade de navegação, aqui, não é concessão, mas regime de passagem em trânsito assegurado pelo Direito Internacional. Ao transformar a proteção naval em serviço remunerado, os próprios Estados Unidos se aproximam da lógica que condenavam no Irã: a liberdade de navegação deixa de ser direito e passa a depender do pagamento a quem exerce, de fato, o controle militar da área.
A contradição fragiliza a posição jurídica americana e abre um precedente perigoso. Se a força permite converter uma rota internacional em fonte de receita, a distância entre garantir a liberdade de navegação e controlar politicamente o estreito diminui a cada dia. A disputa em Ormuz já não é apenas sobre quem pode fechá-lo, mas sobre quem tem autoridade para administrar sua abertura.
Riscos de uma guerra regional
A escalada pode criar condições para um novo acordo. Contudo, pode também ampliar rapidamente o número de Estados envolvidos. Ataques contra a Jordânia, o Bahrein e embarcações ligadas aos Emirados tornam cada vez mais difícil manter o conflito bilateral. Cada vítima, cada erro de cálculo, cada reação de um aliado acrescenta um ator com interesses próprios e arrisca reduzir a capacidade de Washington e Teerã de controlar o próprio ritmo da guerra.
O acordo de junho fracassou não porque a diplomacia fosse inútil, mas porque se tentou apresentar como solução o que era, na verdade, apenas uma suspensão precária da guerra. A nova fase parte de uma aposta diferente: a de que uma correlação de forças mais nítida produza compromissos mais estáveis. Talvez produza. Antes disso, Estados Unidos e Irã terão de descobrir até onde é possível escalar sem transformar a busca por estabilidade numa guerra regional ainda menos controlável do que a atual.



