A guerra dos Estados Unidos contra o Iraque se espalhou para além das fronteiras iraquianas, envolvendo agora diretamente o Irã e milícias xiitas aliadas. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o conflito já deixou mais de 500 mortos nas últimas duas semanas, com combates intensos em Bagdá e nas províncias do sul.
Ataques aéreos e retaliação iraniana
Na última segunda-feira, forças americanas lançaram uma série de ataques aéreos contra bases de milícias apoiadas pelo Irã no leste da Síria e oeste do Iraque. Em resposta, o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã disparou mísseis contra alvos americanos na região, incluindo a base aérea de Al Asad. O Pentágono confirmou que pelo menos 12 soldados americanos ficaram feridos.
A escalada foi condenada por diversos países, incluindo França e Alemanha, que pediram moderação. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Nasser Kanani, afirmou: "O Irã não busca uma guerra com os EUA, mas defenderá seus interesses e aliados com toda a força necessária."
Milícias xiitas avançam no sul
No sul do Iraque, milícias xiitas, como o Hezbollah Iraquiano e as Brigadas do Exército Mahdi, tomaram o controle de várias cidades, incluindo Basra e Nassíria. As forças iraquianas, divididas entre lealdades sectárias, têm dificuldade em conter o avanço. Segundo o general americano Kenneth McKenzie, chefe do Comando Central dos EUA, "as milícias estão recebendo armas e treinamento do Irã, e a situação é extremamente volátil".
Estimativas da ONU indicam que mais de 200 mil civis foram deslocados desde o início da nova fase do conflito, há 15 dias. Hospitais em Bagdá estão sobrecarregados, e há relatos de escassez de alimentos e água potável em áreas sitiadas.
Implicações regionais e internacionais
A expansão do conflito ameaça desestabilizar ainda mais o Oriente Médio. A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos expressaram preocupação com a possibilidade de o Irã usar a crise para aumentar sua influência. Enquanto isso, Israel reforçou sua defesa aérea e realizou exercícios militares perto da fronteira com a Síria.
O Conselho de Segurança da ONU deve se reunir emergencialmente nos próximos dias. O secretário-geral, António Guterres, pediu um cessar-fogo imediato: "A região não pode suportar mais uma guerra total. É imperativo que todas as partes voltem à mesa de negociações."
A Rússia, por sua vez, criticou a presença militar dos EUA no Iraque e ofereceu mediação. O presidente russo, Vladimir Putin, conversou por telefone com o presidente iraniano, Ibrahim Raisi, e com o primeiro-ministro iraquiano, Mustafa al-Kadhimi, para tentar conter a escalada.
No campo diplomático, a União Europeia estuda impor sanções contra indivíduos e entidades iranianas acusadas de apoiar milícias no Iraque. Contudo, analistas alertam que sanções podem agravar a crise humanitária. O centro de estudos International Crisis Group alerta que "o conflito já se transformou em uma guerra por procuração entre EUA e Irã, com o Iraque como campo de batalha".
Números e perspectivas
Até o momento, os combates deixaram 523 mortos confirmados, segundo a Missão de Assistência da ONU para o Iraque (UNAMI), incluindo 47 civis. Mais de 1.200 feridos foram registrados. As forças americanas sofreram 23 baixas, a maioria em ataques com drones e mísseis.
Especialistas temem que o conflito possa se prolongar por meses. O professor de relações internacionais da Universidade de São Paulo, Carlos Alberto Sardenberg, afirma: "Estamos vendo o pior cenário possível: uma guerra regional com múltiplos atores, onde ninguém tem controle total. A chance de um erro de cálculo levar a uma conflagração ainda maior é real."
Enquanto isso, a população civil paga o preço. Em Bagdá, famílias se aglomeram em abrigos improvisados. "Não temos mais para onde ir. A cada dia, as bombas caem mais perto", relata Fatima al-Saidi, moradora do bairro de Sadr City.
A comunidade internacional observa com apreensão, enquanto os EUA prometem continuar sua campanha contra o que chamam de "ameaças iranianas". O presidente Joe Biden afirmou que "os Estados Unidos não hesitarão em proteger suas tropas e seus interesses na região".



