O momento do deslizamento
Eram quatro homens em uma obra irregular em Cariacica, na Grande Vitória, quando o barranco cedeu e os soterrou. As câmeras de segurança instaladas nas proximidades registraram a sequência da tragédia. Na imagem, é possível ver os trabalhadores desempenhando suas atividades no momento exato do desmoronamento. O acidente ocorreu na sexta-feira (30).
De acordo com a Polícia Civil do Espírito Santo, todos os quatro morreram. As vítimas trabalhavam na ampliação de uma distribuidora de bebidas que fica ao lado do terreno. A corporação instaurou inquérito para apurar o caso e todos os detalhes estão sendo levantados.
Uma obra que já estava embargada
A construção irregular não tinha autorização da Prefeitura de Cariacica. De acordo com a administração municipal, o local já havia sido alvo de embargo há aproximadamente um ano, exatamente por não reunir condições mínimas de segurança.
O subsecretário de Defesa Civil de Cariacica, Jonathan Jantorno, explicou que a obra foi interditada e continua assim até o momento do acidente. "Nós encaminhamos para a Secretaria de Desenvolvimento da Cidade, que lavrou o auto de embargo e interdição, e esse ano ela permaneceu interditada. Contudo, o proprietário do imóvel resolveu contratar pessoas não qualificadas, pedreiros, para iniciar a obra sem autorização da Prefeitura", declarou.
A fala do subsecretário evidencia uma prática comum em áreas urbanas: o descumprimento de ordens de embargo. Especialistas apontam que a falta de fiscalização contínua e a ausência de punições mais severas ajudam a explicar por que obras irregulares continuam acontecendo, colocando vidas em risco.
Quatro pessoas da mesma família morreram
Identificadas como Vanderson Santana, dono da distribuidora de bebidas, e os pedreiros Ruan Moreira da Luz, Ronival Moreira de Jesus e Valdomiro Moreira de Jesus, as vítimas incluem três integrantes da mesma família. O próprio dono da obra também morreu.
"Perdi minha família, meu irmão, meu sobrinho, meu tio, que estava junto trabalhando aí na obra. Falando a verdade para você, eu estou assim, sabe quando parece que não caiu a ficha ainda? Sabe quando parece que não tá acontecendo e tá acontecendo?", disse Rosilda Moreira, aposentada.
As equipes de resgate trabalharam por cinco horas até localizar e retirar todos os corpos. A demora se deve à quantidade de terra sobre as vítimas e ao risco de novos deslizamentos na área.
Interdições além da obra
A Defesa Civil de Cariacica interditou não apenas a distribuidora, mas também um galpão vizinho e uma casa que fica acima do local do deslizamento. A medida foi tomada depois de uma avaliação técnica que apontou risco estrutural.
Giuliano Battisti, engenheiro do Crea, detalhou a situação. "Com esse deslizamento que teve, houve uma perda de massa ali, de solo, um solo argiloso. E o imóvel acima, os imóveis acima, principalmente o que está logo acima, ele realmente corre risco", afirmou.
A casa interditada fica no alto do barranco, exatamente sobre a área onde a terra cedeu. Seus moradores precisaram deixar o imóvel imediatamente. Lucas Dias de Oliveira contou que não sabe quando poderá voltar. "Ah, vai dividir, né? Para a casa dos parentes. Mas agora, assim, estamos praticamente sem teto, né? É a nossa única casa", disse.
O que acontece agora
O caso segue sob investigação da Polícia Civil. Imagens das câmeras de segurança foram encaminhadas e a expectativa é que o laudo técnico confirme as causas do deslizamento. A Defesa Civil também informou que fará uma reavaliação dos imóveis no entorno.
O acidente em Cariacica reacende o debate sobre a segurança em obras menores, muitas vezes executadas sem profissionais habilitados. A construção da distribuidora de bebidas havia sido embargada no ano passado, mas a interdição não impediu a retomada do trabalho, mesmo contrariando as normas municipais.
Enquanto as investigações avançam, famílias enlutadas e desalojadas tentam se reorganizar. A falta de uma previsão para liberação da casa deixa os moradores em situação de incerteza. A comunidade, por sua vez, cobra providências para impedir que tragédias semelhantes voltem a ocorrer.



