A Espanha anunciou neste sábado (1º) que conseguiu conter o fluxo de imigrantes em Ceuta e que a cidade autônoma, situada na costa norte da África, já está quase completamente normalizada. Segundo as autoridades espanholas, mais de 48 mil das cerca de 50 mil pessoas que entraram no território desde quinta-feira (30) já retornaram ao Marrocos. O número de mortos durante a grande invasão também subiu: ao menos 67 óbitos foram confirmados.
"Quase todos eles já deixaram Ceuta. A situação se inverteu quase completamente", afirmou o ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, a jornalistas. A declaração ocorre após dias de intensa movimentação na fronteira, que chegou a ficar saturada com a chegada em massa de marroquinos e de outros africanos.
Retirada escoltada e patrulhamento na praia
Depois de flagrar um movimento voluntário de alguns imigrantes que decidiam retornar ao Marrocos na sexta-feira (31), a agência Reuters registrou neste sábado grupos sendo escoltados até a fronteira por soldados do Exército espanhol. Imagens mostram agentes e militares patrulhando a praia de Tarajal, por onde milhares de pessoas chegaram a nado, e revistando túneis e esconderijos para encontrar aqueles que ainda resistem a deixar a cidade.
Para evitar novas chegadas pelo mar, a Guarda Civil começou a instalar uma barreira flutuante de 500 metros. A medida visa impedir que outros migrantes tentem a travessia a nado, rota que se tornou um dos principais pontos de entrada irregular em Ceuta.
Um migrante de Tânger, que tentou a travessia, deu um relato duro sobre a experiência e fez um apelo para que outros não repitam o caminho. "Para ser sincero, nem sei por que vim. Estou voltando agora. É simples assim. Não como desde o almoço de ontem, embora tenha trazido algum dinheiro; só para táxis e coisas do tipo. Ainda não dormi. O que fizemos não foi nada bom, pessoas morreram. Eu imploro, por favor, se você ainda não veio, não venha", disse ele, em entrevista à Reuters.
Entenda a crise em Ceuta
Ceuta é uma cidade autônoma da Espanha localizada no norte da África, na costa do Mediterrâneo, em frente ao Estreito de Gibraltar. Ao lado de Melilla, é um dos únicos territórios da União Europeia com fronteira terrestre com o continente africano. Apesar de ser território espanhol há séculos, o Marrocos reivindica a soberania sobre a região, o que gera atritos diplomáticos constantes.
Por integrar a Espanha, Ceuta também faz parte da União Europeia. Para milhares de migrantes africanos, entrar na cidade significa a primeira porta de acesso ao bloco europeu. A pressão migratória na região aumentou nos últimos dias, com relatos de que a travessia foi incentivada por autoridades marroquinas, embora o governo do Marrocos negue qualquer ação deliberada.
Números da maior onda migratória recente
Na sexta-feira, o prefeito de Ceuta informou que cerca de 60 mil migrantes entraram na cidade em apenas 24 horas. A maioria é composta por jovens marroquinos, mas também há famílias e crianças. Os centros de acolhimento locais já operavam perto do limite antes da nova onda, o que obrigou as autoridades a improvisar locais para abrigar os recém-chegados.
Pelo menos 34 pessoas morreram durante a travessia, de acordo com autoridades de Ceuta. Os corpos foram recuperados nas águas da rota, considerada uma das mais perigosas para migrantes por causa das correntes e do tráfego de embarcações. O número, no entanto, foi atualizado para 67 no sábado, segundo fontes oficiais espanholas, refletindo a gravidade da crise.
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e outras autoridades visitaram Ceuta na sexta-feira para acompanhar a crise de perto. Em meio à emergência, o governo espanhol afirmou que a fronteira permanece aberta para que os imigrantes que entraram de forma irregular possam retornar ao Marrocos livremente, sem medidas punitivas.



