Um vídeo que viralizou nas redes sociais mostra prateleiras de um supermercado com etiquetas eletrônicas e alega que o Walmart, nos Estados Unidos, altera os preços de acordo com cada cliente, baseando-se em algoritmos que monitoram os hábitos de consumo. O Estadão Verifica investigou e concluiu que a afirmação é enganosa.
Walmart nega precificação dinâmica
O Walmart confirmou ao Verifica que está substituindo etiquetas de papel por digitais, chamadas Electronic Shelf Labels (ESL), mas negou qualquer uso de preços dinâmicos. A rede afirmou que os valores são os mesmos para todos os clientes, independentemente da demanda ou do horário. “Os funcionários revisam e implementam as alterações aprovadas por meio de um sistema seguro, geralmente fora do horário de funcionamento das lojas, para que os preços permaneçam estáveis e consistentes ao longo do dia”, informou a empresa.
Atualmente, cerca de 2.300 lojas do Walmart nos EUA utilizam as etiquetas digitais, e a empresa planeja adotar a tecnologia em toda a rede até o próximo ano. O objetivo, segundo o Walmart, é economizar tempo e aumentar a precisão nas atualizações de preços, que antes levavam horas ou dias com o sistema manual.
Especialistas e estudos refutam a alegação
A Federação Nacional do Varejo (NRF) dos EUA afirma que as etiquetas eletrônicas não permitem preços dinâmicos nem alterações constantes, não rastreiam clientes e não coletam dados pessoais. Um estudo publicado em junho por pesquisadores das universidades do Texas, da Califórnia e Northwestern concluiu que a adoção das ESLs não levou a aumentos repentinos de preços nos supermercados.
A Vusion, maior fornecedora de etiquetas eletrônicas nos EUA, com presença em 62 países e clientes como Carrefour e Co-operative Group, também se manifestou. Uma representante da empresa garantiu em uma comissão legislativa de Nova Jersey que as etiquetas “não têm câmeras, sensores ou poder computacional necessários para ajustar os preços com base na identidade de um comprador”. Em seu site, a Vusion explica que uma rede de comunicação sem fio conecta as etiquetas ao banco de dados central da loja, permitindo atualizações automáticas, mas sem interação com os consumidores.
Resistência e regulação nos EUA
Apesar das garantias, a adoção de ESLs enfrenta resistência nos EUA, alimentada pelo aumento dos preços dos alimentos e pelo medo de perda de empregos. Em Nova Jersey, foi sancionado um projeto de lei que proíbe a precificação por vigilância dos clientes, embora essa prática ainda não tenha sido comprovada. A legislação suspende por um ano novas instalações de etiquetas eletrônicas em lojas. Em Nova York, legisladores tentam proibir as ESLs em grandes supermercados e farmácias, argumentando que representam uma ameaça iminente de controle de preços.
Tom McBrien, advogado do Electronic Privacy Information Center, afirmou ao The New York Times que os preços nas etiquetas não mudam espontaneamente de acordo com algoritmos. No entanto, ele alertou que os varejistas têm investido em monitoramento de preços e que as práticas de precificação são obscuras e difíceis de rastrear.
Caso isolado de teste de preços dinâmicos
O jornal The New York Times recordou que, em 2024, a rede Westside Market testou um programa piloto de preços dinâmicos usando etiquetas digitais. Segundo a empresa, o programa oferecia descontos com base no tempo que um cliente permanecia diante de um produto, rastreado por um dispositivo no carrinho. O programa foi encerrado, e não há registro de coleta de preferências individuais dos consumidores.
O Estadão Verifica não obteve retorno da autora do vídeo original.



