Temor fiscal no Reino Unido derruba libra e bolsas globais
Temor fiscal no Reino Unido derruba libra e bolsas

O anúncio de um pacote de estímulos fiscais sem contrapartidas claras de receita pelo governo do Reino Unido provocou uma forte aversão ao risco nos mercados financeiros globais nesta quinta-feira. A libra esterlina despencou mais de 3% ante o dólar, atingindo o menor nível desde 1985, enquanto os juros dos títulos do governo britânico dispararam e as bolsas europeias e americanas operaram em forte queda.

Mercados reagem ao plano fiscal expansionista

O plano, anunciado pela nova primeira-ministra Liz Truss e pelo ministro das Finanças, Kwasi Kwarteng, inclui cortes de impostos e subsídios à energia que devem custar cerca de 150 bilhões de libras (aproximadamente R$ 900 bilhões) nos próximos dois anos. A falta de detalhes sobre como o governo pretende financiar esse pacote gerou desconfiança entre os investidores, que temem um descontrole das contas públicas e um aumento da dívida do país.

“O mercado está claramente preocupado com a sustentabilidade fiscal do Reino Unido. A ausência de um plano crível de ajuste fiscal a médio prazo é um sinal de alerta”, afirmou Jane Foley, estrategista de câmbio do Rabobank, em nota a clientes.

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Impacto nos juros e na libra

O rendimento do título de 10 anos do governo britânico (gilt) saltou para 4,1%, o maior nível desde 2008, refletindo o aumento do prêmio de risco exigido pelos investidores para comprar a dívida do país. A libra esterlina, por sua vez, chegou a ser negociada a US$ 1,0350, uma queda de 3,5% no dia, antes de se recuperar ligeiramente para US$ 1,07.

“A libra está sofrendo uma desvalorização violenta porque o mercado perdeu a confiança na política fiscal do Reino Unido. Sem um plano claro de como reduzir o déficit, a moeda fica vulnerável”, disse Kit Juckes, estrategista do Société Générale.

Contágio global e reações dos bancos centrais

O movimento de aversão ao risco se espalhou para outros mercados. O índice Stoxx 600, que reúne as principais ações europeias, caiu 2,3%, enquanto o S&P 500, em Nova York, recuava 1,8% no meio da tarde. O dólar se fortaleceu ante a maioria das moedas, com o índice DXY, que mede a moeda americana contra uma cesta de pares, subindo 1,2%.

O Banco da Inglaterra (BoE) emitiu um comunicado afirmando que está monitorando os mercados “de perto” e que não hesitará em ajustar a política monetária se necessário. Analistas especulam que o BoE pode ser forçado a elevar os juros de forma emergencial para conter a desvalorização da libra e a inflação, que já está em 9,9%.

“O BoE está em uma posição difícil. Se não agir, a libra pode cair ainda mais, alimentando a inflação. Mas se elevar os juros, pode sufocar a economia”, explicou Andrew Bailey, governador do BoE, em entrevista à BBC.

Perspectivas para a economia britânica

A desvalorização da libra torna as importações mais caras, o que deve pressionar ainda mais a inflação no Reino Unido, que já é a mais alta entre os países do G7. Além disso, o aumento dos juros dos títulos públicos encarece o financiamento da dívida do governo, o que pode levar a novos cortes de gastos ou aumentos de impostos no futuro.

“O cenário é de incerteza e volatilidade. O governo precisa urgentemente apresentar um plano fiscal crível para restaurar a confiança dos mercados”, afirmou Paul Dales, economista-chefe para o Reino Unido da Capital Economics.

O temor fiscal no Reino Unido serve como um alerta para outros países que estão considerando pacotes de estímulo sem contrapartidas fiscais claras, em um momento de juros globais elevados e inflação persistente.

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