O tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros, embora já esperado pelo mercado, tem a princípio um impacto limitado para os ativos domésticos, especialmente considerando a extensa lista de exceções, que inclui mais de 2 mil itens. A medida entra em vigor a partir do dia 22. No entanto, no dia seguinte ao anúncio, os ativos reagiram negativamente: o Ibovespa fechou em queda de 1,24%, enquanto o dólar avançou 0,4%, cotado a cerca de R$ 5,10. Há sinalizações de que o tema ainda não foi totalmente absorvido pelos preços de mercado, também levando em conta possíveis desdobramentos futuros.
Possível retaliação brasileira e temor de guerra comercial
Um dos fatores que preocupam o mercado é a possível retaliação do governo brasileiro por meio da Lei da Reciprocidade. Dada a pressão que empresários dos setores taxados devem exercer pela aplicação da lei, há receio de uma escalada para uma guerra comercial. Na reta final da sessão de quinta-feira, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, sinalizou essa possibilidade: “O governo, no momento adequado, saberá como implementar a lei da reciprocidade”, afirmou, acrescentando que a Apex e o BNDES se empenharão para conquistar novos mercados para o Brasil.
A economista-chefe da Mirae Asset, Marianna Costa, explica que, na véspera, houve cautela quanto à reação do governo brasileiro e à possibilidade de as negociações se arrastarem. “Do lado econômico, provavelmente o governo vai pelo caminho da lei de reciprocidade, que requer algumas etapas burocráticas. Então, se entende que vai levar alguns meses para que fique claro quais são essas ações”, disse, lembrando que entre essas etapas estão as consultas aos setores. “Há uma série de eventos ainda por vir. Então, tem uma incerteza”, completou.
Impacto no câmbio e na percepção de risco
O dólar à vista encerrou a sessão de quinta-feira com alta de 0,40%, a R$ 5,0984. Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da Stonex, aponta que o temor sobre a reciprocidade pode ter afetado o mercado de câmbio na sessão seguinte, com o dólar superando os R$ 5,11 na sexta-feira. “Há uma lista grande de exceções, mas tem setores que são mais impactados do que outros. E isso deve ser motivo de retaliação por parte do presidente Lula e do governo federal, o que também adiciona um certo grau de incerteza sobre essa relação bilateral. Isso pode ter prejudicado de certo modo o real nessa sessão”, avalia.
André Matos, CEO da MA7 Negócios, reforça que o mercado já precificou o cenário-base, que era a confirmação da tarifa de 25%, porque já estava sendo construído há semanas. No entanto, ele aponta dois riscos que estão no radar. O da reciprocidade é visto como o mais delicado. “Mesmo que os produtos americanos que o Brasil venha a taxar não tenham peso enorme na nossa pauta, o problema não é o tamanho da retaliação, é a sinalização. Uma resposta abre caminho para uma escalada, uma contra-resposta, e é assim que uma disputa pontual pode virar uma guerra comercial de verdade, que aí sim mexe com câmbio, cadeias produtivas e prêmio de risco”, avalia. Esse risco, aponta, ainda não entrou por completo nos preços, e o mercado tende a tratar isso como um “jogo de blefe” até que uma medida concreta seja tomada.
“Enquanto a retórica não virar ato, o investidor precifica com cautela. Mas, se a reciprocidade sair do papel, o prêmio exigido para carregar ativo brasileiro sobe rápido, porque muda a natureza do problema, deixa de ser uma tarifa e passa a ser um conflito aberto e de duração incerta”, avalia Matos.
Possível tarifa adicional de 12,5% e riscos de segunda ordem
Outra questão é a possibilidade de uma tarifação adicional de 12,5%, que ampliaria o dano e atingiria setores que hoje se imaginam relativamente protegidos. O governo brasileiro reconhece que os Estados Unidos devem aplicar uma tarifa adicional por falha em proibir e fiscalizar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A principal dúvida é se essa eventual tarifa será cumulativa à sobretaxa de 25% já anunciada. Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, a decisão sobre a nova tarifa deve ser divulgada na próxima semana.
Para Edgar Araujo, CEO da Azumi Investimentos, o mercado provavelmente já incorporou parte do impacto direto das tarifas, mas o risco menos precificado está nos efeitos de segunda ordem. Uma tarifa adicional de 12,5% poderia comprometer de forma mais relevante a competitividade dos exportadores afetados, reduzir margens e exigir redirecionamento de produção para outros mercados. Ainda assim, isoladamente, o impacto permaneceria concentrado em determinados segmentos, avalia. Também para ele, a situação muda caso o Brasil adote medidas de reciprocidade. “Mesmo que a resposta tenha alcance econômico limitado, ela pode ser interpretada como o início de uma escalada política. Nesse cenário, o foco dos investidores deixaria de ser apenas o valor das exportações atingidas e passaria a incluir a possibilidade de novas retaliações, maior incerteza regulatória e deterioração das relações comerciais entre os dois países”, pontua.
Esse tipo de risco, avalia Araujo, costuma aparecer primeiro no câmbio e na curva de juros, por meio de um aumento do prêmio exigido para investir no Brasil. Depois, pode atingir a Bolsa de maneira mais ampla, inclusive empresas sem exposição direta ao comércio exterior.
Impacto na política e percepção pública
A taxação também se mistura à leitura sobre a disputa pelo Planalto, na medida em que é associada ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), como mostrou a pesquisa Genial/Quaest. O levantamento trouxe que para 51% dos entrevistados a responsabilidade por essa imposição é de Flávio Bolsonaro. O mercado acredita que numa eventual gestão do senador haverá maior disciplina fiscal.
Cassio Viana de Jesus, Diretor de Investimentos e Negócios da Pilar Capital, reforça a visão de que, se houver reciprocidade, a questão ultrapassaria o campo comercial e passaria a produzir instabilidade institucional na relação com um mercado relevante e com um ator político de grande envergadura, em meio a calendários eleitorais complexos nos dois países. “O principal canal de transmissão desse risco não seria a perda direta de exportações, mas o aumento do prêmio de risco. Esse movimento pressionaria o câmbio, elevaria as expectativas de inflação, reduziria o espaço para novos cortes de juros e afetaria inclusive empresas domésticas sem exposição direta ao comércio exterior, por meio do aumento do custo de capital e da maior instabilidade macroeconômica”, destaca Viana.
Assim, avalia, o cenário-base da tarifa de 25% parece estar majoritariamente refletido nos preços. O risco ainda parcialmente precificado é o de segunda ordem: uma sequência de retaliações capaz de transformar uma questão comercial setorial em um atrito diplomático prolongado. É esse cenário, mais do que a tarifa inicial, que poderia provocar uma reação mais negativa dos ativos brasileiros e reduzir o fluxo de capital para o país.



