Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros: entenda o impacto
Tarifa de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros: impacto

O governo dos Estados Unidos confirmou na noite desta quarta-feira (15) a adoção de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. A medida já era esperada por empresários e pelo governo local. No mercado financeiro, predomina o entendimento que o impacto da decisão sobre os ativos tende a ser limitado, diante da ampla lista de exceções prevista no tarifaço.

Reação do mercado e Ibovespa em queda

Ainda assim, o Ibovespa opera em queda, contrariando as expectativas iniciais. Após abrir o pregão em alta, defendendo o patamar de 176 mil pontos, o principal índice de ações brasileiro chegou a cair 1,20%, na casa de 173 mil pontos. Às 11h17, a queda do IBOV era de 0,87%, aos 174.474,82 pontos.

Na última sessão, antes da confirmação do tarifaço, o Ibovespa fechou em baixa de 0,36% aos 176.010,9 pontos, enquanto o dólar subiu 0,01% a R$ 5,0785. A Bolsa brasileira seguiu um movimento contrário ao dos índices de Nova York, que avançaram com dado de inflação abaixo do esperado nos Estados Unidos.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Detalhes do tarifaço: exceções e produtos afetados

Em junho, o Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR) propôs a tarifa geral como forma de compensar supostos “atos, políticas e práticas incoerentes” do Brasil que “oneram ou restringem o comércio” americano. O prazo legal para a medida entrar em vigor terminava nesta quarta-feira. Representantes do setor privado consideravam a tarifa de 25% inevitável, mas esperavam aumento da lista de exceções, o que se concretizou. Ao todo, 2.126 produtos brasileiros ficaram de fora da sobretaxa, incluindo carne bovina, café, laranja, suco de laranja, partes para a fabricação de aviões, petróleo e celulose. Por outro lado, o governo americano rejeitou solicitações de pedidos de isenção para outros produtos, como vestuário, calçados e máquinas agrícolas e industriais. A tarifa de 25% começa a valer na próxima quarta-feira (22).

Setores mais pressionados e os que escapam

Entre as companhias da Bolsa, as mais sensíveis ao tarifaço são aquelas que têm maior dependência das exportações para os EUA. Setores como os de siderurgia, bens de capital e autopeças são citados como os mais pressionados. Por outro lado, companhias que possuem plantas industriais nos Estados Unidos tendem a sentir menos o impacto do tarifaço. Quando se trata dos setores voltados predominantemente ao mercado doméstico, como bancos, utilities (energia e saneamento) e varejo de consumo interno, os efeitos do tarifaço são indiretos, pela deterioração do ambiente macroeconômico.

Reação do governo brasileiro

Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que “iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade” e “retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC)”. A Lei de Reciprocidade Econômica permite que o País responda a medidas unilaterais adotadas por países ou blocos econômicos que impactem negativamente a competitividade internacional brasileira.

Análise de especialistas

Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos, destaca que a abertura do pregão está sendo impactada por diversos fatores. O tarifaço é um deles, mas o Ibovespa acompanha o sentimento internacional de maior aversão a risco. Lá fora, as Bolsas de Nova York também caem. “Parte desse risco vinha sendo precificado desde que o governo americano sinalizou a possibilidade de endurecimento da política comercial contra o Brasil”, destaca.

Para Rafael Minotto, analista da Ciano Investimentos, a taxação não representa um problema de maior grandeza, visto que os principais itens foram retirados, principalmente os que poderiam prejudicar a economia americana. Ainda assim, pode reverberar em alguns setores e empresas específicas. “Analisando de forma mais minuciosa, vemos que para alguns setores e, principalmente, empresas de menor porte, que tem maior concentração de faturamento nos EUA, pode ser um grande problema. Na Bolsa de Valores, algumas empresas merecem atenção especial, pois estão mais expostas a taxação. Podemos citar WEG, Tupy e Random, além de CSN e São Martinho”, afirma.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Riscos de retaliação e impacto político

Marcelo Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, destaca que há um risco caso o Brasil decida responder à retaliação. O governo federal disse que pode avaliar algum anúncio pela Lei de Reciprocidade. “É preciso ter cuidado e relação a isso. Diversos produtos que o mercado brasileiro utiliza são importados dos EUA e aumentar a taxa sobre eles pode aumentar também a nossa pressão inflacionária, que já está acima do teto da meta.”

Há ainda um outro ponto no radar, que tem menos a ver com o impacto das tarifas em si, mas com a forma que o tema será utilizado politicamente. “Essas tarifas caem na conta de Flávio Bolsonaro e favorece a narrativa do PT”, diz Jefferson Laatus, estrategista-chefe do Grupo Laatus.

Aos poucos, a proximidade das eleições presidenciais de outubro começam a pesar a Faria Lima, que aposta na vitória da direita como uma forma de alterar a atual condução de política fiscal. Uma pesquisa da Genial/Quaest divulgada nesta quinta-feira mostra que a maioria dos brasileiros atribuiu ao senador e pré-candidato à presidência pelo PL, Flávio Bolsonaro, a responsabilidade sobre o novo tarifaço. Para 42%, as novas tarifas de Trump aumentam a vontade de votar no atual presidente Lula (PT); 27% disseram o mesmo sobre o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).