O cenário macroeconômico continua a impor desafios às empresas brasileiras, que precisam equilibrar despesas e investimentos em meio a juros elevados e queda na oferta de crédito tradicional. A tendência é que o Brasil bata novos recordes de recuperações judiciais, avalia Bruno Gomes, sócio e head da estratégia de distressed e special sits da JiveMauá, em entrevista ao InfoMoney durante a Expert XP 2026.
Desafios macroeconômicos e o aperto do crédito
Gomes destaca que, embora existam empresas com operações saudáveis, muitas enfrentam crises de liquidez severas devido ao custo da dívida e ao ceticismo do mercado financeiro. Os setores mais vulneráveis são varejo, infraestrutura e agronegócio, que sofrem com as incertezas macroeconômicas e fiscais atuais.
Efeitos do ciclo de juros altos
O cenário complexo soma-se aos reflexos da pandemia e a um falso alívio recente. O breve ciclo de queda de juros em 2023 levou várias empresas a realizarem novas operações e reperfilarem dívidas. No entanto, a retomada da alta dos juros pegou essas companhias desprevenidas. Hoje, elas enfrentam o custo elevado da dívida somado à retração dos bancos. Dados da Febraban mostram que a concessão líquida de crédito encolheu, acompanhada pela redução no volume de emissões no mercado de capitais.
Fechamento da torneira do crédito
Gomes explica que o encolhimento do crédito privado ocorreu porque a precificação do risco e o spread deixaram de justificar as operações financeiras. Após diversos eventos de crédito no mercado, os investidores passaram a olhar o cenário com ceticismo e "fecharam a torneira". Como resultado, empresas operacionalmente saudáveis e com boa geração de caixa não conseguem liquidez para pagar o serviço da dívida e a amortização do principal. "É um efeito de cauda longa por causa do juro alto, por muito tempo. A liquidez do mercado vai empurrar várias empresas, que são boas e que normalmente conseguiriam renegociar dívidas, para irem por esse caminho da recuperação judicial e extrajudicial", avalia.
Setores mais afetados
A crise atinge os setores de forma transversal, mas com gatilhos específicos. No varejo, a falta de liquidez e o avanço da inadimplência estão empurrando companhias para o limite financeiro. Em infraestrutura, o gargalo está na rolagem dos passivos. Algumas empresas têm dificuldade de reestruturar suas dívidas por falta de liquidez, recorrendo à recuperação judicial e extrajudicial. No agronegócio, que também registra volume recorde de recuperações judiciais, o choque é múltiplo: o ciclo prolongado de juros altos colidiu com a queda expressiva no preço da soja e a alta nos custos operacionais, como frete e fertilizantes, impactados por tensões geopolíticas. "Vários produtores rurais grandes, que compraram terras no passado ou se alavancaram para produzir mais, estão sofrendo os efeitos disso", pontua Gomes.
Oportunidades para fundos de situações especiais
Diante desse quadro, surgem oportunidades para fundos de situações especiais, que oferecem capital flexível em troca de garantias. O foco está na seleção de ativos que tenham viabilidade operacional própria, sem depender de melhorias imediatas nos indicadores econômicos nacionais. Neste momento, a disciplina de alocação de recursos é essencial. A JiveMauá busca empresas cujo problema seja estritamente financeiro, evitando apostar naquelas que dependem de uma melhora macroeconômica, como queda de juros ou controle da inflação, para sobreviver. O fundo exige que a geração de caixa operacional da empresa seja suficiente para pagar o endividamento em um cenário de dívida alongada. "Não faz sentido eu simplesmente postergar o problema de uma empresa e ser eu daqui a pouco o credor que não vai ser pago", afirma Gomes.
Garantias e ativos reais
Para mitigar os riscos, o fundo exige garantias de qualidade que sejam dificilmente relativizadas em processos de recuperação judicial. A estratégia evita usar recebíveis como garantia principal, pois juízes frequentemente quebram essa trava para permitir a sobrevivência do caixa da empresa em crise. O foco está na captura de ativos reais e descorrelacionados do negócio principal, como bens dos sócios ou ativos de outras linhas de negócios do mesmo grupo que não sofram com a iliquidez. Mesmo esses ativos entram na conta com um forte deságio de segurança; uma garantia avaliada em 100 pelo devedor é precificada a 50 pelo fundo, segundo Gomes.



