O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está aproveitando a reação ao novo tarifaço imposto pelos Estados Unidos para estreitar laços com o empresariado brasileiro, tradicionalmente mais alinhado à direita, a menos de três meses das eleições presidenciais. As reuniões com representantes dos setores afetados pela tarifa de 25% sobre produtos como madeira e equipamentos, anunciada pelo presidente Donald Trump, começam nesta segunda-feira, 20 de julho de 2026.
Estratégia de aproximação
Segundo fontes do Palácio do Planalto, a iniciativa visa não apenas mitigar os impactos econômicos das tarifas, mas também construir uma ponte com o empresariado, que historicamente apoia candidaturas de oposição. A avaliação interna é que as tarifas impostas pela Casa Branca não têm justificativa técnica e representam uma oportunidade para o governo demonstrar capacidade de defesa dos interesses nacionais.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, liderarão os encontros. Serão discutidas medidas como abertura de novos mercados, linhas de crédito e possíveis retaliações comerciais.
Impacto nas exportações
As tarifas de 25% atingem diretamente setores como o de madeira, móveis, máquinas e equipamentos elétricos, que juntos representam cerca de US$ 12 bilhões em exportações anuais para os EUA. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), pelo menos 150 mil empregos estão em risco se as tarifas se mantiverem por mais de seis meses.
“Precisamos de uma resposta coordenada. O governo está aberto ao diálogo e quer construir soluções em conjunto”, afirmou Alckmin em entrevista coletiva na sexta-feira. Empresários do setor de madeira, como o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Madeira Processada (Abimap), Paulo Sérgio de Oliveira, disseram que “qualquer movimento do governo para reduzir os danos é bem-vindo”.
Contexto eleitoral
A aproximação ocorre em um momento crítico para o governo Lula, que busca reeleição. Pesquisas recentes mostram empate técnico entre Lula e o principal candidato de oposição, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. O apoio do empresariado pode ser decisivo para a campanha, especialmente em termos de financiamento e influência sobre o eleitorado.
O Planalto nega que a agenda tenha motivação eleitoral, mas analistas apontam que a crise com os EUA oferece uma plataforma para Lula se apresentar como defensor da indústria nacional. “O governo está usando a crise para se reposicionar como parceiro do setor produtivo, algo que não era sua marca até então”, avalia o cientista político Carlos Melo, do Insper.
Próximos passos
As reuniões desta semana incluirão representantes dos setores de madeira, máquinas, equipamentos elétricos e moveleiro. Também estão previstos encontros com federações da indústria de estados como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, os mais afetados. O governo estuda ainda acionar a Organização Mundial do Comércio (OMC) contra as tarifas, mas a medida é considerada de longo prazo.



