O Brasil praticamente dobrou a importação de automóveis vindos da China neste ano. De janeiro a junho, foram cerca de 140 mil emplacamentos de veículos do país asiático, que se destacam por serem eletrificados, com preços competitivos e promessa de economia de combustível. Esse movimento gerou um efeito-dominó nos preços do mercado de automóveis novos e usados no país, oferecendo ao consumidor a oportunidade de comprar um carro zero ou seminovo por valores inferiores aos cobrados recentemente, especialmente em modelos acima de R$ 100 mil.
Montadoras tradicionais reagem com descontos
Para enfrentar a concorrência, montadoras já tradicionais no Brasil estão reduzindo preços de veículos 0km por meio de campanhas de descontos e bônus na troca de usados. O EXTRA percorreu concessionárias no Rio na última semana. A Toyota, por exemplo, oferece bônus de R$ 10 mil na troca de um usado na compra do Yaris Cross XR, podendo chegar a R$ 40 mil para a Hilux Cabine Dupla SRX Plus AT. Em nota, a Toyota afirmou que a política faz parte da estratégia para oferecer “condições competitivas”. “A entrada de novos competidores, somada às transformações relacionadas à eletrificação, conectividade e digitalização, além de novas expectativas em relação à mobilidade, à experiência de compra e ao uso dos veículos, amplia as opções disponíveis e acelera a transformação ao longo de toda a cadeia de valor”, disse a montadora.
Outras marcas também reduzem preços
A Honda oferece bônus de até R$ 15 mil na troca de um usado. A Volkswagen cortou cerca de R$ 10 mil no preço do T-Cross e lançou o Feirão dos Feirões Volks Vale+. A Fiat reduziu o valor do Fastback Impetus Turbo de R$ 173.490 para R$ 134.990, além de bonificações para outros modelos. A Stellantis, dona de marcas como Jeep e Peugeot, informou que as condições especiais fazem parte das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil. A empresa destacou que a definição de preços considera câmbio, custos de produção, logística e dinâmica do mercado, e afirmou estar “sempre atenta às variações no cenário para seguir com o posicionamento adequado e competitivo”. O EXTRA também procurou a Honda, mas não teve retorno até o fechamento da edição.
Impacto nos usados e seminovos
Com a redução dos preços dos carros novos, há consequente queda nos valores de seminovos e usados. Geraldo Victorazzo, vice-presidente Comercial e de Marketing da Auto Avaliar, explica: “Se a referência do carro usado é o carro novo, quando o carro novo reduz o preço, naturalmente o usado também tem uma regressão mais forte”.
China domina importações
Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), foram emplacados 280.600 veículos importados no primeiro semestre, sendo quase metade da China. Em um ano, o volume de chineses dobrou, de 71 mil para 140.800 unidades. A BYD, que já tem fábrica no Brasil, encerrou o semestre com 99.029 emplacamentos e atingiu em junho a marca de 300 mil carros eletrificados vendidos em quatro anos. A GWM fechou o semestre com 35.218 unidades vendidas entre automóveis e comerciais leves.
Especialistas apontam vantagens dos chineses
Milad Neto, sócio e diretor-executivo da K.Lume Consultoria Automobilística, afirma: “Hoje você tem um veículo chinês de maior porte competindo com um modelo menor fabricado no Brasil. Esses carros chegam mostrando suas qualidades e dizendo ao mercado: ‘Eu também sou uma boa opção, tenho um preço extremamente competitivo’”.
Guerra de preços começou na Ásia
O movimento é impulsionado pela elevada produção na China, onde há intensa concorrência entre montadoras. A chamada “guerra de preços” preocupou o governo chinês, que interveio para evitar concorrência predatória. Sem conseguir absorver toda a produção internamente, as empresas expandiram para outros países, incluindo o Brasil. Segundo relatório do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), veículos eletrificados já representam 15% das importações brasileiras da China. O professor da FGV Antônio Jorge Martins explica que os preços competitivos resultam da forte concorrência e da verticalização da produção, que amplia a margem para redução de preços, junto com incentivos chineses. “Hoje há muitas fabricantes de veículos elétricos na China. Isso significa que as montadoras precisam vender fora do mercado chinês para manter a rentabilidade”, diz.
Procurada, a Anfavea não quis comentar. A Fenauto e a Fenabrave não responderam até o fechamento.



