Iene japonês desaba para 162,30 por dólar e risco de crise fiscal cresce
Iene japonês desaba para 162,30 por dólar e risco fiscal cresce

O iene japonês continua sua trajetória de desvalorização, atingindo 162,30 ienes por dólar nesta segunda-feira, com recuo de 0,58%. A moeda já acumula queda de 3,6% em 2026 e de quase 11% em relação a um ano atrás, aproximando-se dos menores níveis em 40 anos. A pressão sobre a divisa japonesa persiste e pode se intensificar, segundo analistas.

Gatilhos da desvalorização

Entre os fatores recentes estão os temores de que o Japão esteja atrasado no combate à inflação após o choque do petróleo provocado pela guerra com o Irã. Embora o Banco do Japão tenha elevado os juros, pode ser necessário um aperto monetário mais agressivo. Ao mesmo tempo, outros bancos centrais, como o Federal Reserve, adotam posturas mais duras, tornando a política monetária japonesa relativamente mais fraca.

Os planos da primeira-ministra Sanae Takaichi de ampliar os gastos deficitários também aumentam a pressão de baixa sobre o iene, pois podem alimentar ainda mais a inflação. A dívida gigantesca do país, que já alcançou 240% do PIB, é apontada como um risco central.

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Análise de especialistas

Robin Brooks, pesquisador sênior da Brookings Institution e ex-economista-chefe do Institute of International Finance, alerta há algum tempo para os riscos envolvendo a moeda japonesa. Na visão dele, o Banco do Japão tem reprimido os rendimentos dos títulos públicos para evitar que o custo dos juros sobre o estoque de dívida se torne insustentável, mascarando o risco de uma crise fiscal.

“Isso pressiona o iene para baixo, já que os investidores têm pouco incentivo para permanecer no Japão”, escreveu Brooks em uma publicação no Substack na semana passada. Ele acrescentou que a intervenção cambial está “condenada ao fracasso porque trata o sintoma (a desvalorização do iene), e não a doença (o excesso de dívida)”.

Impactos econômicos e comerciais

Embora um iene fraco possa favorecer as exportações japonesas, ele também gera atritos com parceiros comerciais como os Estados Unidos, especialmente num momento em que o governo Trump busca reduzir o déficit comercial. Além disso, a moeda depreciada piora a inflação ao encarecer importações — e o Japão depende fortemente de energia comprada no exterior.

Para tentar conter uma desvalorização mais brusca, Tóquio tem feito intervenções pontuais no mercado, gastando dezenas de bilhões de dólares em abril e maio. No entanto, isso não foi suficiente para interromper a queda do iene. Nem mesmo a intervenção verbal do chefe do gabinete japonês, que disse na semana passada que o governo “está pronto para agir sempre que necessário”, teve efeito relevante.

Perspectivas futuras

Brooks afirmou que os mercados estariam interpretando de forma equivocada a implosão silenciosa do iene como um enfraquecimento gradual e controlado, já que a ameaça constante de intervenção ainda impede quedas mais acentuadas. Essa aparência superficial de calma, porém, é enganosa e insustentável, advertiu ele, já que as intervenções recentes no câmbio vêm se mostrando cada vez menos eficazes.

“Vai chegar um momento em que o mercado simplesmente vai ignorar a intervenção”, previu Brooks. Enquanto o Banco do Japão continuar impedindo que os rendimentos dos títulos reflitam o verdadeiro risco fiscal do país, o iene seguirá sob pressão e as intervenções serão cada vez mais inúteis. A moeda pode acabar chegando a 170 ienes por dólar, segundo ele.

Em contraste com o iene, o índice acionário japonês Nikkei 225 vive um ano de forte alta, avançando 38,5% em 2026, enquanto o S&P 500 sobe 10%. Normalmente, uma valorização dessa magnitude tenderia a elevar a demanda por ienes, com investidores correndo para ações japonesas. Mas, segundo o Financial Times, operadores têm feito hedge cambial de forma intensa, o que mantém a pressão de baixa sobre a moeda.

“Os japoneses provavelmente sabem que a intervenção cambial, neste momento, é um exercício de inutilidade”, disse Chris Turner, chefe global de pesquisa de mercados do ING, ao Financial Times. “Mas eles não querem deixar as perdas do iene correrem soltas, caso isso desencadeie uma mentalidade de ‘venda Japão’, se os títulos do governo japonês — e depois as ações — também passarem a sofrer pressão.”

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