A inteligência artificial (IA) está prestes a levar o capitalismo de vigilância a um novo patamar. Em artigo publicado no Valor Econômico, o colunista alerta que as ferramentas de IA permitirão uma coleta e análise de dados pessoais muito mais sofisticada, transformando a forma como empresas e governos monitoram comportamentos.
Como a IA amplia a vigilância
O capitalismo de vigilância, termo cunhado pela pesquisadora Shoshana Zuboff, descreve um sistema em que dados pessoais são extraídos e usados para prever e influenciar comportamentos. Com a IA, essa extração se torna mais barata e eficiente. Algoritmos de aprendizado de máquina podem identificar padrões sutis em grandes volumes de dados, desde localizações GPS até históricos de navegação, permitindo que empresas ofereçam produtos ou influenciem decisões de forma mais direcionada.
Segundo o colunista, o avanço da IA generativa — como o ChatGPT — intensificará esse processo. "A capacidade de gerar conteúdo personalizado em tempo real cria um ciclo de retroalimentação: quanto mais interagimos, mais dados são coletados, e mais a IA aprende sobre nós", escreve. Estima-se que o mercado global de IA ultrapasse US$ 1 trilhão até 2030, impulsionado em grande parte por aplicações de vigilância e publicidade.
Riscos para a privacidade
A concentração de dados nas mãos de poucas empresas de tecnologia levanta preocupações éticas. "Estamos caminhando para uma sociedade onde cada movimento é monitorado e cada escolha é manipulada", afirma o colunista. A falta de regulação robusta em muitos países permite que essas práticas se expandam sem controle. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) oferece alguma proteção, mas sua aplicação ainda é frágil diante de gigantes como Google e Meta.
O artigo cita um estudo da Universidade de Oxford que aponta que 70% dos aplicativos mais populares compartilham dados com terceiros, muitos deles usando IA para análise preditiva. Isso cria um mercado bilionário de informações pessoais, estimado em US$ 200 bilhões anuais.
Impactos sociais e econômicos
Além da privacidade, o capitalismo de vigilância turbinado pela IA pode aprofundar desigualdades. Pessoas de baixa renda são mais suscetíveis a ofertas predatórias e manipulação, enquanto as elites podem pagar por serviços que protegem seus dados. "A IA não é neutra; ela reflete os vieses de quem a cria e dos dados que consome", alerta o colunista.
No campo econômico, a concentração de dados reforça monopólios. Empresas que dominam a coleta de dados — como Amazon, Apple e Google — usam IA para otimizar suas operações e eliminar concorrência. Isso reduz a inovação e aumenta o poder de mercado dessas corporações.
Caminhos para a regulação
O artigo defende que governos precisam agir rapidamente para estabelecer limites. Sugere-se a criação de autoridades reguladoras independentes e a exigência de transparência algorítmica. "Não podemos deixar que a IA se torne uma ferramenta de controle social sem debate democrático", conclui o colunista. Iniciativas como o AI Act da União Europeia são passos importantes, mas ainda insuficientes.
O debate sobre a IA e o capitalismo de vigilância é urgente. Como cidadãos, precisamos entender como nossos dados são usados e exigir proteções efetivas. A tecnologia pode ser uma força para o bem, mas apenas se for regulada de forma ética e democrática.



