Inteligência artificial transforma trabalho de analistas, mas não os substitui
IA transforma trabalho de analistas, mas não substitui

A inteligência artificial deve transformar profundamente o trabalho dos analistas de investimentos nos próximos anos, mas dificilmente vai substituí-los. À medida que algoritmos assumem tarefas repetitivas e aceleram o processamento de grandes volumes de dados, ganham importância competências como interpretação de cenários, contextualização e construção de confiança no mercado financeiro.

Esse foi o principal consenso entre os especialistas que participaram do painel “Analistas vs. Inteligência Artificial: Qual o futuro do Research?”, realizado na quinta-feira, 23 de janeiro, durante a Expert XP, um dos maiores eventos de investimentos do Brasil. O encontro reuniu Thiago Kapulskis, gestor de ações globais de tecnologia na São Pedro Capital, e Carlos Daltozo, engenheiro de produto na Bridgewise, plataforma de análise financeira baseada em IA.

Automação de tarefas e ganho de produtividade

Na avaliação dos participantes, a tecnologia já vem mudando a rotina dos analistas ao automatizar etapas operacionais da produção de relatórios, facilitar o acesso a informações e ampliar a capacidade de cruzar dados de diferentes fontes. Ainda assim, eles defendem que as decisões de investimento continuarão dependendo da interpretação humana. “A inteligência artificial representa uma evolução da forma de trabalhar, e não uma mudança dos fundamentos da análise de empresas”, afirmou Kapulskis.

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Metodologias tradicionais, como fluxo de caixa descontado e avaliação de modelos de negócios, continuam sendo a base do research, enquanto a IA acelera a obtenção, a organização e o processamento de informações. “O que muda [no research] são os meios para chegar aos dados e às conclusões. A produtividade cresce muito, mas isso não altera os pilares da análise”, acrescentou o gestor. Ferramentas baseadas em modelos de linguagem, como os grandes modelos de linguagem (LLMs), já conseguem automatizar tarefas repetitivas, liberando tempo para que os analistas foquem mais na interpretação dos resultados.

O contexto ainda é humano

Apesar dos avanços, Kapulskis avalia que ainda existe um limite importante para a atuação das máquinas: compreender o contexto de cada decisão. “O contexto continua sendo algo difícil para a inteligência artificial reproduzir. É justamente isso que diferencia uma boa análise”, afirmou. Ele destacou que a capacidade de entender nuances econômicas, políticas e setoriais, bem como a história da empresa e suas particularidades, ainda é um domínio predominantemente humano.

Daltozo complementou que o principal desafio do mercado deixou de ser o acesso à informação e passou a ser a transformação de grandes volumes de dados em conhecimento útil para decisões de investimento. “Redes sociais, vídeos, notícias e bases digitais produzem diariamente uma quantidade de informações impossível de ser analisada manualmente”, disse. A tecnologia amplia a capacidade de trabalho dos analistas e permite comparar empresas de diferentes mercados com bases padronizadas de dados.

IA como aliada na tomada de decisão

“O melhor relatório é sempre o próximo. Com a tecnologia disponível hoje, não tenho dúvida de que sou um analista melhor do que era há seis meses”, afirmou Daltozo. Ele destacou o avanço das inteligências artificiais desenvolvidas para setores específicos, em vez de modelos genéricos. Soluções especializadas tendem a ganhar espaço por reduzir riscos de respostas imprecisas e aumentar a confiabilidade das análises. A hiperpersonalização também é vista como um diferencial crescente nas plataformas de investimento, permitindo que cada investidor receba recomendações adaptadas ao seu perfil e objetivos.

No entanto, Kapulskis alertou para um possível efeito colateral da disseminação dessas ferramentas: a padronização excessiva das análises. “A ferramenta tende a trazer respostas mais binárias. Se todos utilizarem os mesmos modelos, existe o risco de muita gente chegar às mesmas conclusões”, afirmou. Para ele, a revisão humana seguirá relevante justamente para evitar esse efeito e garantir diversidade de perspectivas no mercado.

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Confiança e relacionamento com investidores

Os participantes também concordaram que a relação de confiança entre analistas e investidores deve continuar sendo um ativo central. Em momentos de maior volatilidade, disse Kapulskis, “o investidor ainda quer falar com alguém capaz de interpretar os acontecimentos e explicar riscos, e não apenas receber uma resposta automatizada”. A capacidade de construir relacionamentos e transmitir segurança é um diferencial que a IA ainda não consegue replicar.

Dessa forma, o futuro do research, segundo os especialistas, não será de substituição, mas de complementaridade. A inteligência artificial atuará como uma ferramenta poderosa para aumentar a eficiência e a profundidade das análises, enquanto os analistas humanos continuarão a desempenhar o papel crítico de interpretação, contextualização e aconselhamento. A chave para o sucesso será a integração equilibrada entre tecnologia e expertise humana.