O mundo testemunha o ressurgimento do neomercantilismo, uma doutrina econômica que prioriza superávits comerciais e acumulação de reservas, em detrimento do livre comércio. Esta abordagem, adotada por potências como Estados Unidos e China, está redefinindo as relações econômicas globais e gerando tensões que ameaçam a estabilidade do sistema multilateral de comércio.
O que é neomercantilismo?
Diferentemente do mercantilismo clássico dos séculos XVI a XVIII, que associava riqueza ao acúmulo de metais preciosos, o neomercantilismo moderno foca em competitividade industrial, inovação tecnológica e domínio de cadeias produtivas estratégicas. Países adotam políticas como subsídios domésticos, barreiras tarifárias e não tarifárias, manipulação cambial e proteção à propriedade intelectual para favorecer suas indústrias nacionais.
Segundo o colunista, essa guerra neomercantilista não é declarada abertamente, mas se manifesta em disputas comerciais, sanções e corridas tecnológicas. “O neomercantilismo é uma tentativa de usar o Estado para inclinar o campo de jogo a favor de empresas nacionais”, afirma o artigo.
Impactos no comércio global
As consequências são profundas. O comércio mundial, que cresceu em média 5% ao ano entre 1990 e 2008, agora enfrenta estagnação e fragmentação. Dados da Organização Mundial do Comércio (OMC) indicam que o volume de comércio de mercadorias cresceu apenas 0,8% em 2023, muito abaixo da média histórica. As cadeias de suprimento, antes globalizadas, estão se regionalizando, com empresas buscando reduzir dependência de fornecedores únicos.
Um exemplo concreto é a guerra comercial entre EUA e China, que resultou em tarifas médias de 19% sobre produtos chineses importados pelos EUA, e de 21% sobre produtos americanos importados pela China. Essas barreiras já custaram à economia global cerca de US$ 1,3 trilhão em produção acumulada até 2025, segundo estimativas do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Estratégias em jogo
Os neomercantilistas modernos não se limitam a tarifas. Eles utilizam instrumentos como controles de exportação de tecnologia, investimentos estatais em setores-chave (semicondutores, baterias, inteligência artificial) e acordos comerciais seletivos que excluem rivais. A China, por exemplo, investiu mais de US$ 300 bilhões em sua indústria de semicondutores desde 2015, enquanto os EUA aprovaram o CHIPS Act, de US$ 52 bilhões, para reavivar sua produção doméstica.
“O objetivo não é apenas proteger indústrias nascentes, mas capturar a liderança tecnológica do futuro”, destaca o texto. Essa competição cria um dilema para países em desenvolvimento, que precisam equilibrar a atração de investimentos estrangeiros com a proteção de seus próprios setores estratégicos.
Riscos e críticas
Economistas alertam que o neomercantilismo pode levar a uma espiral de retaliações, prejudicando todos os envolvidos. A história mostra que guerras comerciais raramente têm vencedores; na década de 1930, o protecionismo generalizado aprofundou a Grande Depressão. Hoje, o risco é de uma fragmentação econômica que reduza a eficiência global e aumente a inflação.
Além disso, as políticas neomercantilistas frequentemente beneficiam grandes corporações em detrimento de consumidores e pequenas empresas. O colunista argumenta que “o neomercantilismo é uma ilusão de soberania econômica que, no fim, enfraquece a cooperação internacional e a prosperidade compartilhada”.
Alternativas e caminhos
Para evitar uma escalada, o artigo sugere o fortalecimento de instituições multilaterais como a OMC, a negociação de regras comuns para subsídios industriais e a promoção de cadeias de suprimento resilientes, mas abertas. “O livre comércio não é perfeito, mas é melhor que a guerra de todos contra todos”, conclui.
O debate sobre neomercantilismo não é meramente acadêmico: ele define o futuro do emprego, da inovação e da distribuição de renda no planeta. Enquanto as potências competem por hegemonia, o resto do mundo observa e tenta se adaptar a essa nova ordem econômica incerta.



