O endividamento do governo brasileiro atingiu a marca de R$ 9,27 trilhões em junho, um aumento de mais de R$ 200 bilhões em apenas um mês. O crescimento ocorre mesmo com a arrecadação de impostos batendo recordes, mas as despesas continuam superando as receitas. A dívida pública reúne todo o endividamento do governo, que emite títulos do Tesouro Nacional para financiar gastos como salários, Previdência e programas sociais quando o dinheiro arrecadado não é suficiente.
Crescimento acelerado e previsões
Dados do Tesouro Nacional indicam que a dívida vem crescendo de forma acelerada nos últimos anos. Em maio, o valor era de R$ 9,03 trilhões. Em junho, o aumento médio foi de quase R$ 8 bilhões por dia, elevando o total para R$ 9,27 trilhões. A perspectiva para o fim do ano é que o endividamento alcance R$ 10,3 trilhões, conforme projeção do próprio Tesouro.
Para o pesquisador da Fundação Getulio Vargas (FGV) Rafael Barbosa, o avanço da dívida é influenciado tanto por novos gastos quanto pelos juros pagos pelo governo para financiar o próprio endividamento. “Estruturalmente, ele gastou muito, aumentou muito a dívida. Mas nesse mês em particular, o que representou esse aumento da dívida foi mais a parte dos juros”, afirmou.
Risco e juros mais altos
O professor de Economia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Ecio de Farias Costa alerta que a falta de controle sobre o crescimento das despesas pode aumentar o risco percebido pelos investidores. “E o governo não fazendo o dever de casa para melhor conduzir esse aumento das despesas, ou seja, controlar, mas sem deixar faltar para a sociedade como um todo, isso faz com que o risco do país aumente. Ou seja, para se continuar endividando mais, você tem um risco mais alto e os investidores nacionais e internacionais só vão aceitar esse maior risco com prêmio. E o que é o prêmio? Taxas de juros cada vez mais altas para financiar esse endividamento”, disse.
Esse ciclo de endividamento e juros elevados pressiona ainda mais as contas públicas, tornando o serviço da dívida mais caro e dificultando o equilíbrio fiscal.
Déficit nas contas públicas
O governo federal registrou déficit de R$ 92 bilhões no primeiro semestre, o segundo pior resultado desde 1997. Apenas em junho, o rombo foi de R$ 48 bilhões. O déficit ocorre quando as despesas superam as receitas obtidas com impostos, agravando a necessidade de emissão de dívida.
O professor do Insper Sérgio Firpo defende uma revisão dos gastos para conter o avanço da dívida. “A parte de despesa discricionária, aquilo que o governo federal pode usar livremente, tem ficado cada vez menor e sendo comprimido ainda mais à medida que você pensa que dentro dessa parte discricionária tem as emendas parlamentares também. E aí tem uma série de medidas que a gente pode pensar, desde revisão de benefícios, desde reforma da Previdência, desde despesa com Previdência de militares, desde despesas com funcionalismo”, afirmou.
Perspectivas e desafios
Com a dívida próxima de R$ 10 trilhões e o déficit persistente, o governo enfrenta o desafio de equilibrar as contas sem comprometer investimentos e serviços essenciais. A pressão dos juros e o risco fiscal elevado podem limitar o espaço para políticas expansionistas, exigindo ajustes estruturais para garantir a sustentabilidade da dívida no longo prazo.



