No mês passado, Gemma Cheng’er Deng, do King’s College London, e eu lançamos o BRICS+ Thinking, plataforma política sem fins lucrativos que visa explorar soluções coletivas para os maiores desafios mundiais nesta era do “nós contra eles”. Para marcar a ocasião, meu ex-colega de Goldman Sachs Gavyn Davies elaborou uma análise numérica detalhada do que aconteceu com a economia mundial desde que criamos a sigla BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), há um quarto de século. Até onde sei, trata-se da análise mais exaustiva e objetiva do desempenho real das economias dos BRICS em relação aos cenários que apresentamos no início dos anos 2000.
China e Índia superam expectativas
Muitas das conclusões de Davies são fascinantes. Para começar, tanto China quanto Índia superaram largamente nossas projeções. Suas contribuições ao crescimento global do grupo têm sido tão significativas que mais do que compensaram o desempenho abaixo do esperado do Brasil, da Rússia e da África do Sul (esta última foi adicionada uma década após nosso artigo original sobre o BRIC).
Em segundo lugar, China e Índia também superaram as expectativas em termos de PIB per capita, que é o que de fato importa para o cidadão comum em cada país. O sucesso dos dois países serve, assim, de inspiração para todas as outras chamadas economias emergentes.
Economias desenvolvidas também ficam aquém
Em terceiro lugar, não só Brasil, Rússia e África do Sul tiveram desempenho inferior ao previsto nos nossos cenários originais, como o mesmo aconteceu com todas as principais economias desenvolvidas, incluindo os Estados Unidos. Esta é uma conclusão digna de nota, já que a narrativa dominante hoje em dia gira em torno do desempenho consistentemente superior dos EUA. Embora seja verdade que os EUA tenham superado Europa e Japão, mesmo assim não corresponderam às nossas expectativas de 25 anos atrás.
Davies inclui também um mapa fascinante para visualizar a mudança no equilíbrio da economia global. Ele situa o atual centro de gravidade (em termos de PIB global) em algum lugar a oeste do Paquistão, ao mesmo tempo que prevê que este atingirá a fronteira da China até 2040. Isto é consistente com o deslocamento constante para o leste que se tem verificado desde a década de 1980.
Discrepância entre PIB e mercado de ações
Ao refletir sobre este mapa com um grupo grande de pesquisadores privados e acadêmicos, percebi que ele contrasta fortemente com o que um mapa das valorizações do mercado acionista mostraria. Imaginava-se que este centro de gravidade permaneceria firmemente nos EUA. Mas, nesse caso, é preciso considerar algumas questões fundamentais.
Por exemplo, o desempenho do mercado de ações não está ancorado no desempenho da economia subjacente, como medido pelo PIB real (corrigido pela inflação)? É claro que existe literatura interminável sobre o tema, incluindo da minha própria ex-equipe na Goldman Sachs.
Durante o tempo em que trabalhei na empresa, constatamos frequentemente que era o desempenho “inesperado” do PIB que tinha as maiores consequências para os mercados de ações. Não é de admirar que um período de crescimento do PIB inesperadamente forte implicasse lucros inesperadamente elevados, e vice-versa.
Valorização das ações americanas sob escrutínio
Mas o que é que isso nos diz sobre as valorizações atuais das ações norte-americanas, uma vez que a economia dos EUA não tem de fato gerado surpresas positivas neste milênio? Os detentores de ações com os maiores ganhos de riqueza podem ficar vulneráveis a alguma atenção indesejada por parte dos decisores políticos, caso o público comece a suspeitar que tiveram um desempenho muito superior ao que o desempenho da economia parece justificar.
Outra questão pertinente é se o desempenho recente das ações norte-americanas irá persistir ou recuar para resultados mais alinhados ao crescimento do PIB. O mercado de ações norte-americano está hoje avaliado em cerca de US$ 77 bilhões, o que corresponde a quase metade da valorização mundial total – volume duas vezes superior à participação dos EUA no PIB global (cerca de 25%). Esta discrepância sugere que ou o PIB tem de acelerar de modo acentuado, como creem alguns otimistas da IA, ou que as ações estão prestes a sofrer uma correção.
Comparação histórica com o Japão
É verdade que a participação dos EUA nas valorizações dos mercados globais de ações também se situava perto dos 50% em 1980. Mas isso foi antes de China e Índia terem mercados de ações comparáveis. À época, Europa continental, Reino Unido e Japão representavam as frações restantes, com cerca de 13%, 8,5% e 15%, respectivamente. Hoje, porém, a participação da Europa se mantém praticamente inalterada, enquanto a do Japão caiu para 5%-6% e a do Reino Unido para míseros 2,5%.
Entretanto, a participação global da China cresceu para cerca de 10%, a da Índia atingiu os 5% e os BRICS, no seu conjunto, representam agora cerca de 20%, o que é consideravelmente superior aos 10% que tínhamos projetado noutro documento inicial da Goldman Sachs. No entanto, no caso da China, esta capitalização de mercado muito maior continua, ainda assim, significativamente inferior à sua respectiva cota no PIB global, o que é o inverso da situação nos EUA.
Vale lembrar que, durante o pico do mercado japonês por volta de 1990, a capitalização de mercado do país asiático representava cerca de 45% do total mundial, em comparação com os 30% dos EUA à época. Será que a experiência japonesa ao longo dos 36 anos seguintes pode ser indicativa do próprio futuro do mercado norte-americano? À medida que entramos nesta época de ofertas públicas iniciais (IPOs) marcantes no setor da IA, os investidores devem ter essa questão bem presente.
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