O Brasil passará a ter a maior tarifa aplicada pelos Estados Unidos entre os países da América do Sul a partir de 22 de julho, quando entram em vigor as novas taxas impostas por Donald Trump na última quarta-feira (15). O dado é do Global Trade Alert (GTA), iniciativa do St. Gallen Endowment, centro de estudos independente sediado na Suíça, que compila estatísticas de comércio global.
Comparação regional e cálculo da tarifa
Atualmente, o Brasil está empatado com o Uruguai, com tarifa efetiva média de 11,66%, atrás apenas do Paraguai, com 12,92%. Com o novo tarifaço, a tarifa de importação do Brasil passará para 18,17%, segundo o GTA, enquanto seus vizinhos — pelo menos por enquanto — seguirão com taxas bem menores. Essa percentagem difere da alíquota de 25% anunciada por Trump porque considera o peso de cada produto na pauta exportadora e as exceções previstas nas novas regras.
Razões políticas e ideológicas
Segundo especialistas, a resposta para o Brasil ter se tornado alvo prioritário cruza pelo menos quatro dimensões: política, econômica, estratégica e diplomática. Para Carlos Pio, ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior do Ministério da Economia e professor da Universidade de Brasília (UnB), a tarifa contra o Brasil reflete uma mudança na doutrina comercial de Trump: da lógica de livre mercado para uma visão nacionalista, que prioriza proteger setores industriais e favorecer alianças políticas.
“É uma ação política, mas não quer dizer que não seja uma ação que tenha propósito comercial”, pondera Pio. Segundo ele, o Brasil se torna alvo preferencial não só pela economia relativamente fechada, mas por um desalinhamento ideológico somado à proximidade pessoal que o governo Bolsonaro cultivou com Trump. “Não é nem com a Casa Branca nem com o governo americano. É com o Trump”, resume. A comparação com a Argentina de Javier Milei reforça o argumento: “A Argentina também é protecionista como o Brasil, mas Milei está em uma condição distinta do Lula em relação à política.”
Disputa com a China e instrumento de pressão
Jan Marcel, professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), acrescenta que o Brasil é a maior economia da América Latina e tem relevância comercial superior para os EUA, incluindo produtos de maior valor agregado, como aeronaves, máquinas, petróleo, aço e produtos químicos. Além disso, a disputa entre EUA e China por influência global coloca o Brasil no centro, já que mantém relação econômica forte com a China e, ao mesmo tempo, é parceiro relevante dos EUA, transformando a tarifa em instrumento de pressão sobre temas que vão além do comércio bilateral.
Celso Figueiredo, advogado especialista em comércio internacional e professor de Relações Governamentais da FGV, diz que as tarifas de Trump deixaram de ser meras ferramentas econômicas para se tornarem instrumentos de pressão política e arrecadação fiscal, sob a doutrina America First. No caso brasileiro, porém, Figueiredo vê “componentes extras”. Ele cita a nota do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) e a decisão recente: “o fundo técnico objetivo dessa decisão acaba sendo raso, o que leva a crer que, de fato, essa tomada de decisão tem um aspecto mais político”.
Investigação em curso e possibilidade de escalada
O especialista lembra que há uma investigação em curso contra 60 países, incluindo o Brasil, para apurar se ganharam vantagem competitiva com itens produzidos por trabalho forçado. Isso demonstra que os EUA monitoram de perto qualquer sinal que ameace sua hegemonia, como a ideia, discutida no âmbito do Brics, de uma moeda própria para o bloco de 11 países.
Em nota após o anúncio dos EUA, o governo brasileiro classificou a data como “um marco lastimável” nas relações bilaterais. Uma fonte da Casa Branca citada pelo jornal O Globo sinalizou que qualquer retaliação brasileira forçaria os EUA a “potencialmente modificar” sua ação. Ainda assim, Figueiredo considera que um cenário de escalada não é o mais provável: a Lei de Reciprocidade sancionada no ano passado ficou “engavetada”, e o mesmo padrão deve se repetir. A aposta segue sendo a negociação diplomática.



