Renata Piazzon: Brasil tem condições de se tornar potência agroambiental
Brasil pode ser potência agroambiental, diz presidente do Arapyaú

O Brasil reúne condições para se tornar uma potência agroambiental e transformar sua natureza em riqueza, defende Renata Piazzon, presidente do Instituto Arapyaú. Em entrevista ao InfoMoney, a executiva afirma que o país só vai avançar quando aceitar que é possível gerar valor com a floresta em pé.

Potencial na economia de baixo carbono

Para Piazzon, o Brasil precisa acreditar que pode ser uma potência agroambiental. Ela critica a narrativa antiga de que é impossível conciliar desenvolvimento e conservação. “Só quando a gente entender que é possível gerar valor com a floresta em pé, e que não tem melhor país para fazer isso no mundo, vamos conseguir transformar tudo isso em uma estratégia política de país.” A executiva destaca que muitas soluções que o mundo procura já existem no Brasil. O desafio é converter vantagens comparativas — biodiversidade, florestas, reservas minerais e energia limpa — em vantagens competitivas.

Frentes de liderança global

Piazzon aponta que a reorganização econômica global, impulsionada por geopolítica, inteligência artificial, transição energética e clima, coloca o Brasil em posição privilegiada. “A transição para uma economia de baixo carbono é uma das nossas maiores oportunidades, porque poucos países combinam produção de alimentos, biodiversidade, potencial de restauração de florestas e energia limpa como nós. O mundo está buscando segurança: energética, alimentar e climática. E o Brasil é capaz de oferecer essas três respostas simultaneamente.”

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Sustentabilidade ainda vista como custo

Questionada sobre por que a sustentabilidade ainda é percebida como custo, Piazzon responde: “Durante muito tempo, a sustentabilidade foi apresentada como obrigação, conformidade ou restrição ao crescimento, quase sempre associada a custos. Na prática, muitas soluções reduzem desperdícios, aumentam a eficiência, ampliam o acesso a capital e criam novos mercados.” Ela defende traduzir a agenda para a linguagem dos negócios, mostrando que produtividade, competitividade e sustentabilidade podem caminhar juntas. “Precisamos produzir evidências econômicas e apresentar casos concretos.”

Mudança no setor privado

Segundo a presidente do Arapyaú, cada vez mais empresas percebem que sustentabilidade está ligada a acesso a mercados, competitividade, atração de investimentos e gestão de riscos. “O debate deixou de ser ‘se’ essa agenda importa e passou a ser ‘como’ implementá-la de forma consistente.” Ela cita consumidores mais atentos, mercado financeiro incorporando riscos climáticos e grandes empresas exigindo critérios socioambientais de fornecedores. “Ainda temos muito a avançar para tratar a sustentabilidade como estratégia de inovação e geração de valor.”

Riscos climáticos e decisões financeiras

Piazzon considera a incorporação de fatores climáticos nas decisões de investimento como estrutural, embora avance em velocidades diferentes conforme o contexto. “Os riscos climáticos já são riscos financeiros, e isso tende a se aprofundar. Ainda precisamos desenvolver instrumentos capazes de direcionar capital para soluções que conciliem retorno, conservação e desenvolvimento dos territórios.” Ela admite que em momentos de volatilidade e tensão geopolítica o tema pode perder espaço, mas “a direção da transformação dificilmente será revertida.”

Legado da COP30

A COP30, realizada no Brasil, foi uma oportunidade de reposicionar o país como provedor de soluções globais. “Se conseguirmos acelerar investimentos, fortalecer a bioeconomia, impulsionar a restauração de florestas e transformar boas experiências em políticas públicas e negócios de larga escala, teremos aproveitado esse momento.” Para Piazzon, o verdadeiro legado será mostrar que conservar e produzir não são excludentes e que a economia de baixo carbono pode ser um vetor de crescimento.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Quebra do ciclo de curto prazo

Para superar o foco no curto prazo, Piazzon defende a construção de agendas que sobrevivam aos ciclos políticos e sejam vistas como de Estado, não de governo. “Também precisamos fortalecer espaços onde diferentes setores construam consensos em torno de objetivos comuns. Precisamos de uma visão compartilhada de onde queremos chegar: que economia queremos construir, como pretendemos competir no mundo, quais setores desenvolver.” Quando essas respostas ficam claras, as políticas públicas ganham continuidade e o capital encontra previsibilidade.

Desafio de construir convergências

O Arapyaú atua como articulador entre setores. Piazzon explica que trabalham com convergência, não com consenso. “O desafio é criar espaços onde as pessoas consigam conversar a partir do que compartilham, e não apenas das diferenças. A convergência não elimina os conflitos, mas permite construir soluções práticas.” Ela ressalta que, em um contexto de alta polarização, desenvolver capacidades de coordenação e construção coletiva é essencial, pois os problemas atuais são complexos demais para serem resolvidos por um único setor.

Lideranças do futuro

Piazzon enumera características indispensáveis para líderes nos próximos dez anos: pensamento sistêmico, capacidade de colaboração e disposição para atuar em redes. “Quem conseguir conectar diferentes perspectivas, construir confiança e transformar complexidade em ação terá uma enorme vantagem.” Ela destaca que os desafios econômicos, ambientais, tecnológicos e sociais estão profundamente conectados. “Não existe mais decisão exclusivamente financeira, nem exclusivamente ambiental.”

Decisão difícil e visão de futuro

A decisão mais difícil na carreira de Piazzon foi deixar uma trajetória consolidada no Direito para ingressar na filantropia e no terceiro setor. “Abrir mão de uma identidade profissional já construída para começar quase do zero exigiu coragem. Hoje, olhando para trás, tenho convicção de que foi a melhor decisão.” Ao ser perguntada sobre que notícia sobre o Brasil em 2035 a faria pensar que valeu a pena, ela responde: “Gostaria de ler que o Brasil se tornou a principal referência mundial no desenvolvimento de soluções baseadas em clima e natureza, conciliando prosperidade, conservação e inclusão social. Que conseguimos mostrar ao mundo que manter a floresta em pé gera mais valor do que destruí-la. Que as comunidades locais passaram a viver melhor porque participam das cadeias da bioeconomia. E que os investidores passaram a olhar para o país não apenas pelos recursos naturais, mas pela capacidade de transformar esses ativos em inovação, conhecimento e desenvolvimento.”