A Fraternidade São Pio X (SSPX), grupo católico ultraconservador excluído da Igreja Católica pelo Vaticano no início de julho, informou nesta segunda-feira (13) que apresentou um recurso contra a decisão da Santa Sé. Em 2 de julho, o Vaticano declarou a SSPX oficialmente "em cisma" após o grupo ordenar quatro bispos sem autorização do papa Leão XIV. A Santa Sé excomungou os bispos ligados à organização, declarou inválidos os sacramentos celebrados por eles e orientou os fiéis a não aderirem ao grupo.
Recurso protocolado contra decisão
Em comunicado, a SSPX disse que protocolou um recurso contra a decisão no último sábado (11). O grupo afirma que exerce o direito de pedir a revisão de um ato administrativo que considera lesivo e diz agir "em espírito de respeito à autoridade eclesiástica" e de "fiel apego à justiça, à verdade e ao bem da Igreja". A Fraternidade também informou que entregou o pedido às autoridades competentes e pediu orações aos fiéis.
Consequências da declaração de cisma
Segundo o Vaticano, a Fraternidade São Pio X está oficialmente "em cisma" com a Igreja Católica, o que significa que foi separada da ordem da Igreja. Além da excomunhão dos bispos, o Vaticano advertiu os católicos de que a SSPX agora celebra sacramentos de forma ilícita, não podendo oficiar casamentos nem ouvir confissões com validade perante a Igreja Católica. A Santa Sé também afirmou que padres e fiéis leigos que aderirem ao grupo passam a ser considerados em situação de cisma e excomungados.
Antes da ordenação, Leão XIV fez um último apelo ao superior da SSPX, padre Davide Pagliarani, para que desistisse da cerimônia. Em carta divulgada pelo Vaticano, o pontífice pediu que o grupo "renunciasse ao projeto" e alertou para as consequências. Foram consagrados quatro novos bispos — dois franceses, um norte-americano e um suíço — diante de milhares de fiéis reunidos na sede da fraternidade. Segundo a Santa Sé, a ordenação de bispos sem o consentimento do papa rompe a comunhão com a Igreja Católica.
Grupo rejeita reformas do Concílio Vaticano II
A SSPX reúne católicos tradicionalistas que defendem a reversão de mudanças promovidas pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Entre as principais bandeiras estão o retorno das missas em latim, celebrações com o padre voltado para o altar (de costas para os fiéis) e a rejeição de parte das reformas litúrgicas e pastorais adotadas pela Igreja nas últimas décadas. A decisão do Vaticano marca uma nova escalada na crise entre a Santa Sé e a SSPX, considerada o maior grupo dissidente do catolicismo tradicionalista.
Fundada em 1970 pelo bispo francês Marcel Lefebvre, a Fraternidade São Pio X surgiu em oposição às mudanças do Concílio Vaticano II. O concílio marcou uma das maiores reformas da história recente da Igreja Católica: as missas deixaram de ser obrigatoriamente em latim e passaram a ser realizadas na língua de cada país; os padres passaram a celebrar voltados para os fiéis; e a Igreja ampliou o diálogo com outras religiões. A fraternidade considera que essas reformas descaracterizaram a tradição católica, defendendo a preservação da liturgia anterior ao concílio e uma interpretação mais rígida da doutrina.
Conflito que atravessa décadas
O confronto entre a SSPX e o Vaticano não é recente. Em 1988, o fundador da comunidade também ordenou quatro bispos sem autorização do então papa João Paulo II, apesar de um apelo para que desistisse. Na época, a ordenação levou à excomunhão dos envolvidos. A punição foi suspensa em 2009 pelo papa Bento XVI, em uma tentativa de reaproximação, mas a situação canônica da fraternidade permaneceu irregular e as divergências nunca foram totalmente resolvidas.
Agora, com a ordenação de quatro novos bispos, o grupo volta a desafiar diretamente a autoridade do Vaticano, reabrindo um impasse que atravessa seis pontificados e coloca Leão XIV diante de uma das primeiras grandes crises de seu governo.



