O presidente Luiz Inácio Lula da Silva determinou a convocação do embaixador brasileiro na Argentina, Julio Bitelli, para consultas em Brasília. A medida ocorre após o presidente argentino Javier Milei ter proferido ofensas contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, chamando-o de "canalha" e "cobarde" durante um evento no último fim de semana.
Segundo fontes do Itamaraty, a convocação é um gesto diplomático de protesto e foi comunicada ao governo argentino na manhã desta segunda-feira. O embaixador deve retornar ao Brasil nos próximos dias.
Reação do governo brasileiro
O governo brasileiro classificou as declarações de Milei como "inaceitáveis" e contrárias ao respeito mútuo entre nações. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou que "a liberdade de expressão não pode servir de pretexto para ataques pessoais a autoridades de outros países". Vieira também destacou que o Brasil espera uma retratação pública por parte do governo argentino.
A convocação de embaixadores é um instrumento diplomático raramente utilizado e sinaliza um forte descontentamento. Em 2025, o Brasil havia convocado o embaixador da Nicarágua após críticas ao processo eleitoral, mas essa é a primeira vez que tal medida é adotada contra um país vizinho e parceiro do Mercosul.
Contexto das declarações
Milei fez os comentários durante um discurso em um fórum conservador em Buenos Aires. Ele criticou decisões judiciais de Moraes relacionadas a investigações contra aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. "Moraes é um canalha e um cobarde", disse Milei, arrancando aplausos da plateia. As falas foram amplamente repercutidas nas redes sociais e geraram mal-estar na diplomacia brasileira.
O governo brasileiro havia tentado minimizar atritos anteriores com Milei, mas as ofensas pessoais extrapolaram o limite aceitável, segundo diplomatas. A convocação do embaixador é vista como um recado direto ao Palácio Casa Rosada.
Reações na Argentina
No lado argentino, o ministro das Relações Exteriores, Diana Mondino, disse que o governo vai analisar a situação e que "as relações bilaterais são importantes demais para serem afetadas por um desentendimento pontual". Já o entorno de Milei considera a reação brasileira desproporcional.
Especialistas apontam que o episódio pode complicar ainda mais a relação entre os dois países, que já enfrentava divergências em temas como política econômica e alinhamento internacional. A Argentina é um dos principais parceiros comerciais do Brasil no Mercosul, e qualquer atrito pode ter impactos no comércio bilateral, que somou US$ 34 bilhões em 2025.
Próximos passos
O embaixador Bitelli deve chegar a Brasília até quarta-feira e terá reuniões com o chanceler Mauro Vieira e possivelmente com o presidente Lula. O governo brasileiro condiciona a volta do embaixador a Buenos Aires a uma retratação clara de Milei. Caso contrário, poderá haver medidas adicionais, como a convocação do embaixador argentino em Brasília para esclarecimentos.
Segundo o analista político Carlos Pereira, da FGV, "a convocação do embaixador é o sinal mais forte que o Brasil pode dar sem romper relações. Mostra que Lula está disposto a impor limites." O incidente ocorre em um momento delicado para a integração regional, com o Mercosul negociando acordos comerciais com a União Europeia e outros blocos. A crise diplomática pode atrasar as negociações, alertam analistas.



