Lula chama fala de Milei de 'patacoada' e causa crise com Paraguai
Lula chama fala de Milei de 'patacoada' e crise com Paraguai

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) chamou as declarações do presidente argentino Javier Milei de “patacoada” e se referiu a ele como “aquela coisa”, em meio a uma crise diplomática desencadeada por suas próprias falas sobre a Guerra do Paraguai. No último dia 24 de julho, em Jacareí (SP), Lula afirmou que o Paraguai invadiu o Brasil, citando a tomada de Corumbá, o que levou o governo paraguaio a convocar o embaixador brasileiro em Assunção para uma nota oficial de protesto nesta quinta-feira (30).

A declaração polêmica e a reação paraguaia

“A gente gosta de paz, mas a gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil. Invadiu Corumbá, ao mesmo tempo, invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina. E aquela guerra que parecia que era nada durou cinco anos”, disse Lula. A fala ocorreu enquanto ele defendia a tradição pacífica do Brasil, mas gerou forte reação no Paraguai. O chanceler paraguaio, Rubén Ramírez Lezcano, afirmou que o governo defenderá a “dignidade” e os interesses nacionais, destacando que o tema foi discutido em uma conversa telefônica entre o presidente Santiago Peña e Lula. “A dignidade do Paraguai não é negociável. Quero que saibam que, sob a liderança do Presidente Santiago Peña, abordamos esta questão ao mais alto nível desde o início”, declarou Ramírez Lezcano em entrevista coletiva.

A ocupação de Corumbá na Guerra do Paraguai

Corumbá foi um dos primeiros territórios brasileiros ocupados por tropas paraguaias, em 3 de janeiro de 1865. Sob o comando do general Vicente Barrios, os soldados chegaram pelo Rio Paraguai e desembarcaram no Porto de Corumbá praticamente sem resistência. A ocupação fazia parte da ofensiva contra a então Província de Mato Grosso. Não há consenso histórico sobre as condições durante os cerca de dois anos de domínio: relatos militares brasileiros mencionam saques, destruição de prédios públicos e violência, enquanto outros estudos indicam que a cidade permaneceu organizada, com comércio funcionando sob controle paraguaio.

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A retomada brasileira e a epidemia de varíola

Corumbá foi retomada em 13 de junho de 1867 pelo 2º Corpo Expedicionário de Mato Grosso, que atravessou o Pantanal e o Rio Paraguai-Mirim. Os combates por terra e rio resultaram na captura de 27 soldados paraguaios e na morte do comandante da praça, seis oficiais e cerca de 120 militares paraguaios. Do lado brasileiro, oito soldados morreram e 21 ficaram feridos. A reconquista ocorreu em meio a uma grave epidemia de varíola, que se espalhou pela província e matou milhares, sendo uma das maiores tragédias sanitárias associadas ao conflito. Historiadores divergem sobre o estado da cidade após a retirada paraguaia: algumas fontes afirmam devastação, outras apontam preservação estrutural.

O maior conflito da América do Sul

A Guerra do Paraguai (1864–1870), também chamada Guerra da Tríplice Aliança, é considerada o maior conflito armado da América do Sul. As estimativas de mortos são: Uruguai – 3.120; Argentina – 18 mil; Brasil – 50 mil; e Paraguai – entre 150 mil e 70% de sua população, algo entre 60% a 70% do total de habitantes. Essa perda demográfica é um dos pontos mais sensíveis para o país.

Repercussão diplomática e institucional

Na quarta-feira (29), a Câmara dos Deputados do Paraguai emitiu uma declaração oficial repudiando a fala de Lula, acusando-o de “distorcer e minimizar” a dimensão histórica do conflito. O documento afirma que o presidente “desconhece a complexidade dos antecedentes do conflito, o profundo sofrimento humano suportado pelo povo paraguaio” e as consequências geradas pela guerra. A convocação do embaixador brasileiro sinaliza o descontentamento de Assunção, enquanto a crise expõe as tensões entre os dois países, ampliadas pelas críticas de Lula a Milei.

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