A China está em negociações ativas com os houthis do Iêmen para garantir a segurança dos navios que transitam pelo Mar Vermelho, conforme revelou o Ministério das Relações Exteriores chinês nesta terça-feira. A medida ocorre após uma série de ataques do grupo rebelde a embarcações na região, que elevaram os prêmios de seguro e interromperam rotas comerciais.
Diálogo diplomático
O porta-voz da chancelaria, Wang Wenbin, afirmou que a China tem mantido contato com todas as partes envolvidas para promover a desescalada. "A China acredita no diálogo e na cooperação para resolver as questões de segurança marítima", disse Wang, em coletiva de imprensa. A comunicação com os houthis se dá por canais informais, mas o governo chinês não descarta a possibilidade de uma mediação formal no futuro. Segundo fontes diplomáticas, as conversas têm se concentrado em garantir passagem segura para navios chineses e outros que não estejam ligados a Israel.
Importância do Mar Vermelho
O Mar Vermelho é uma artéria vital para o comércio global, conectando o Mediterrâneo ao Oceano Índico pelo Canal de Suez. Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) indicam que cerca de 12% do comércio mundial passa por essa rota. Em 2023, mais de 19 mil navios atravessaram o canal, transportando mercadorias no valor de aproximadamente US$ 1 trilhão. Qualquer bloqueio ou atraso significativo pode ter repercussões econômicas globais, afetando cadeias de suprimentos já tensionadas por outros conflitos.
Contexto dos ataques
Os houthis, que controlam grande parte do Iêmen, intensificaram os ataques a navios comerciais em solidariedade aos palestinos na Faixa de Gaza. Desde novembro de 2023, o grupo alvejou dezenas de embarcações com mísseis e drones, forçando muitas a desviar para a rota do Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Isso aumentou o tempo de viagem em até duas semanas e elevou os custos de combustível em cerca de 30%, segundo a Câmara Internacional de Navegação. A situação levou a um aumento nos prêmios de seguro marítimo para a região.
Posição chinesa
A China, que depende fortemente do Mar Vermelho para suas exportações e importações de petróleo, busca evitar a escalada. "Qualquer interrupção no Mar Vermelho afeta diretamente a economia chinesa e global", analisou o especialista em segurança marítima Zhang Ming, da Universidade de Pequim. A abordagem de Pequim contrasta com a dos Estados Unidos, que lidera uma coalizão militar na região para proteger a navegação. Enquanto Washington opta pela força, a China prefere o diálogo, alinhada à sua política de não intervenção em assuntos de outros países.
Reações do setor
Empresas de navegação, como a dinamarquesa Maersk e a chinesa COSCO, já relataram aumento nos custos de seguro e logísticos. A COSCO, uma das maiores do mundo, anunciou o desvio de algumas de suas rotas para evitar o Mar Vermelho. O governo chinês prometeu coordenar com outros países para garantir a passagem segura. "Estamos trabalhando com a Arábia Saudita e o Egito para encontrar soluções", disse um diplomata chinês sob condição de anonimato.
Perspectivas
A mediação chinesa pode representar uma oportunidade para Pequim consolidar sua influência no Oriente Médio, mas especialistas alertam para a complexidade do conflito iemenita. "Os houthis são um ator não estatal com suas próprias demandas; não está claro se respeitarão qualquer acordo", ponderou Li Wei, analista do Instituto de Estudos do Oriente Médio. Enquanto isso, os ataques continuam, e a comunidade internacional observa com atenção os próximos passos da China.
Apesar dos desafios, a iniciativa chinesa sinaliza que o diálogo ainda é uma ferramenta valorizada na arena global. O sucesso ou fracasso dessas negociações terá implicações não apenas para o comércio, mas também para o papel da China como potência mediadora.



