O diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Rafael Grossi, afirmou nesta quarta-feira (24) que a retomada das inspeções às instalações nucleares iranianas deve ocorrer em algum momento, apesar das divergências recentes entre Estados Unidos e Irã sobre o tema. A declaração é a indicação mais firme até agora da agência da ONU de que os inspetores voltarão a ter acesso aos locais de enriquecimento de urânio, considerados essenciais para monitorar o programa nuclear iraniano.
Contexto das inspeções suspensas
Desde que Israel lançou uma ofensiva de 12 dias contra o Irã em 2025, Teerã impede visitas da AIEA a instalações onde, segundo a agência, há estoques de urânio altamente enriquecido. Estimativas apontam que o material poderia ser suficiente para a produção de até dez armas nucleares, caso o país decidisse desenvolver esse tipo de armamento. O governo iraniano nega essa intenção e sustenta que seu programa nuclear tem fins pacíficos.
Declarações de Grossi em Fukushima
Em entrevista coletiva na usina nuclear de Fukushima Daiichi, no Japão, Grossi ressaltou que um memorando de entendimento assinado pelos presidentes dos Estados Unidos e do Irã prevê a supervisão da AIEA sobre as atividades nucleares abrangidas pelo acordo. “Entendo as declarações políticas, elas fazem parte da realidade, mas o ponto fundamental é que existe um memorando de entendimento assinado por ambos os presidentes”, afirmou. Segundo Grossi, o documento estabelece explicitamente que as atividades relacionadas a instalações e materiais nucleares serão supervisionadas pela agência. “Obviamente, para isso, precisamos realizar inspeções. Se isso acontecer depois de amanhã, em uma semana ou em dez dias, é importante, mas não essencial. Isso vai acontecer”, disse.
Versões conflitantes entre EUA e Irã
No início da semana, autoridades americanas e iranianas deram versões conflitantes sobre a possibilidade de retomada das inspeções. Na terça (23), o Irã negou ter aceitado vistorias a suas instalações nucleares como parte das negociações com os Estados Unidos previstas no acordo firmado entre os dois países. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retrucou e insistiu que negociadores iranianos aceitaram a vistoria durante a primeira rodada de negociações pós-acordo, realizadas no fim de semana na Suíça. E ameaçou encerrar as tratativas, dando fim ao acordo de paz firmado entre os dois países. "Se eles não concordassem com isso, não haveria mais negociações!", disse Trump em sua rede social Truth Social.
Bloqueio no Estreito de Ormuz
O presidente norte-americano disse ainda que só aceitou levantar o bloqueio naval que a Marinha dos EUA faziam na entrada do Estreito de Ormuz porque negociadores iranianos teriam aceitado as vistorias nucleares. "Baseado nessa e em outras grandes concessões feitas pelo Irã, eu concordei em permitir que o Estreito de Ormuz siga aberto, sem novos bloqueios navais".
Posição do Irã
Mais cedo, o Ministério das Relações Exteriores iraniano afirmou que o país não realizou nenhuma reunião com a AIEA na Suíça, nem planeja permitir que o órgão de fiscalização nuclear da ONU inspecione suas instalações nucleares danificadas pela guerra contra os EUA. O porta-voz da pasta, Esmaeil Baghaei, disse que não há protocolo para esse tipo de inspeção, acrescentando que o Irã continuará cumprindo suas obrigações atuais como membro do Tratado de Não Proliferação Nuclear e sob seu acordo de salvaguardas com a AIEA. Ainda segundo Baghaei, os negociadores estão tentando alinhar todas as outras questões e cláusulas entre EUA e Irã antes de começar a negociar a questão nuclear. Ele disse também que as capacidades defensivas e o programa de mísseis de Teerã não serão objeto de negociações com ninguém.
Próximos passos
A questão nuclear continua sendo uma das mais delicadas entre EUA e Irã neste pós-guerra, tanto sobre a diluição do material radioativo em poder de Teerã quanto sobre as inspeções às usinas iranianas. Porém, ambos os países se comprometeram a resolver esse problema e os demais —como a reabertura do Estreito de Ormuz— em até 60 dias através de múltiplas rodadas de negociações e com a ajuda de mediadores.



