Dois fortes terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 atingiram o norte da Venezuela na noite de quarta-feira (24), com intervalo de apenas 39 segundos, causando destruição generalizada em Caracas e cidades litorâneas. O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) classificou o evento como um terremoto "duplo", um fenômeno sismológico raro que tende a produzir danos superiores aos de um tremor isolado de mesma magnitude. O presidente interino do país confirmou 32 mortes e mais de 700 feridos, enquanto equipes de resgate trabalhavam nos escombros de prédios desabados.
O que é um terremoto duplo
A definição de terremoto duplo foi estabelecida pelos sismólogos Thorne Lay e Hiroo Kanamori em um estudo de 1980: um par de tremores de magnitudes semelhantes, que ocorrem em curto intervalo de tempo —de segundos a poucos dias— e em locais próximos, geralmente a até cem quilômetros um do outro. Diferentemente de uma sequência sísmica comum, onde um terremoto principal é seguido por réplicas de magnitude bem menor, no duplo os dois eventos liberam quantidades comparáveis de energia e são tratados como terremotos principais —não há um "tremor secundário" claramente menor. Isso indica que as ondas sísmicas de cada abalo se originaram de fontes distintas, embora próximas.
Falhas independentes e mecanismos de desencadeamento
De acordo com a análise de ondas sísmicas do USGS, embora os epicentros dos dois terremotos na Venezuela tenham ficado a poucos quilômetros um do outro, eles se originaram de falhas diferentes, com estilos de ruptura distintos —o que é compatível com mapas de falhas ativas já existentes para a região. "Quando falamos de terremoto duplo, mesmo a cerca de 15 quilômetros de distância uma da outra, são falhas independentes: cada uma se rompe em um ponto distinto da crosta. Uma facilita o deslizamento da outra, mas não se trata da mesma estrutura —por isso são chamados de terremotos duplos, ou gêmeos, com dois epicentros", explica o sismólogo Bruno Collaço, da Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) e do Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP).
Os sismólogos apontam dois mecanismos prováveis para esse tipo de evento. O primeiro é a transferência de tensão: o deslocamento provocado pelo primeiro terremoto pode aumentar a pressão sobre uma falha vizinha, antecipando sua ruptura. O segundo é o efeito direto da passagem das ondas sísmicas do primeiro tremor, que pode desestabilizar falhas próximas que já estavam no limite da ruptura. No caso venezuelano, é provável que o primeiro terremoto tenha desencadeado o segundo por um desses caminhos, embora a causa exata ainda esteja em análise.
Contexto tectônico da Venezuela
A costa norte da Venezuela fica sobre o limite entre as placas tectônicas do Caribe e da América do Sul —uma fronteira difusa que atravessa o território continental do país. Segundo o resumo tectônico do USGS, nessa região a Placa do Caribe se move para leste em relação à Placa Sul-Americana a uma velocidade média de 20 milímetros por ano, gerando grandes falhas de deslizamento lateral, como os sistemas de Boconó, San Sebastián e El Pilar. O terremoto principal, de magnitude 7,5, resultou de uma falha de deslizamento lateral rasa nesse sistema, mecanismo confirmado pelo USGS, embora análises preliminares ainda debatam se a ruptura ocorreu exatamente sobre o traço da falha de Boconó ou em uma falha paralela.
"É um contexto tectônico muito complexo, com contato entre várias placas —a do Caribe, a Sul-Americana, a de Nazca, mais ao sul, e a de Cocos, mais ao norte. Na região dos epicentros existe uma zona de falhas amplamente conhecida pelos sismólogos, com diversas estruturas ativas; duas delas se movimentaram quase simultaneamente", descreve Collaço. A região já registrou outros eventos de grande magnitude, como o terremoto de Caracas de 1900 (estimado em magnitude próxima de 7,6), o tremor de magnitude 6,5 em 1967 e, em 2018, um terremoto de magnitude 7,3 no litoral do estado de Sucre. Em setembro de 2025, a mesma região registrou outro terremoto duplo —de magnitudes 6,2 e 6,3— que deixou ao menos uma morte e mais de 110 feridos.
Por que terremotos duplos causam destruição maior
A escala de magnitude é logarítmica: cada aumento de 0,1 ponto corresponde a um ganho de cerca de 40% na energia liberada. Aplicando esse cálculo à diferença entre os dois tremores (7,2 e 7,5), o segundo terremoto liberou cerca de três vezes mais energia do que o primeiro. Isso ajuda a explicar por que o tremor pareceu tão prolongado: quando o segundo abalo se soma ao primeiro, o tempo total de sacudimento aumenta, ampliando os danos a construções já fragilizadas pelo impacto inicial.
Outros fatores agravaram a destruição. Os dois terremotos ocorreram a profundidades rasas —21,9 km o primeiro e 10 km o segundo—, fazendo a energia chegar com menos perda às áreas povoadas. Caracas está situada sobre uma bacia sedimentar, solo que amplifica as ondas sísmicas. A topografia montanhosa favorece deslizamentos de terra, e o sedimento sob a capital aumenta o risco de liquefação —fenômeno em que o solo saturado de água perde resistência e se comporta como líquido, fazendo construções afundarem ou tombarem. A vulnerabilidade das construções também pesa: segundo o USGS, parte significativa dos imóveis na região afetada foi erguida em alvenaria sem reforço estrutural ou em adobe, materiais especialmente sujeitos a colapso em tremores fortes.
Outros terremotos duplos no mundo
Apesar de raros, eventos desse tipo já foram registrados em outras partes do planeta. Em fevereiro de 2023, um terremoto duplo de magnitudes 7,8 e 7,5 atingiu a Turquia e a Síria, com epicentros a cerca de 90 km de distância e nove horas de intervalo —período bem mais longo que o observado na Venezuela. O desastre deixou mais de 50 mil mortos. Há também casos em zonas de subducção profunda, como o terremoto duplo de magnitude 7,6 na fronteira entre Peru e Brasil em 2015, com epicentros separados por cerca de 50 km e cinco minutos de intervalo. Em 1988, a Austrália registrou um "tripleto" de três terremotos de magnitude entre 6,3 e 6,7 na região de Tennant Creek, com cerca de meia hora de intervalo entre eles.
Casos como o da Venezuela reforçam, para sismólogos, a importância de sistemas de alerta capazes de identificar rapidamente se um primeiro tremor faz parte de uma sequência maior —já que, em um terremoto duplo, não há garantia de que o abalo inicial seja o mais forte. "Réplicas tendem a continuar ocorrendo por dias ou semanas após esse tipo de evento, o que mantém o monitoramento sísmico da região em alerta mesmo depois que o tremor principal passa", afirma Collaço.



