Nos últimos anos, a palavra “sionismo” passou a ser utilizada em muitos espaços como sinônimo de tudo o que há de mais negativo no mundo. Uma pesquisa do Instituto Brasil-Israel em parceria com o Instituto Idea mostrou que, em 66% das narrativas críticas monitoradas nas redes, Israel e o sionismo apareciam associados a ideias como colonialismo, racismo, genocídio e até nazismo. Diante desse cenário, o ponto de partida necessário é esclarecer de que sionismo se está falando.
O que é o sionismo?
O sionismo é mais do que um movimento pelo direito de autodeterminação do povo judeu a um lar nacional, é uma resposta histórica a séculos de perseguição aos judeus na Europa, incluindo pogroms, exclusão social e restrições econômicas e políticas. Nesse sentido, se insere no conjunto mais amplo dos movimentos de nacionalismos que emergem na modernidade. Ao mesmo tempo, como outros movimentos desse tipo, é atravessado por disputas internas, diferenças ideológicas e conflitos de interesse.
A visão de Ber Borochov
Ber Borochov, sionista marxista, ao formular uma leitura materialista da questão nacional, argumentava que o nacionalismo deve ser compreendido a partir das condições de produção e das divisões de classe que estruturam a sociedade. Isso implica reconhecer que não existe um único nacionalismo dentro de uma mesma nação, mas diferentes expressões dele, associadas a interesses sociais distintos.
Aplicado ao caso do sionismo, isso significa que há correntes que defendem soluções políticas diferentes: desde aquelas negociadas, que visam o direito de autodeterminação do povo palestino, assim como há setores que sustentam projetos de expansão territorial, exclusão e hierarquização étnica. Essa disputa interna é parte da sociedade israelense contemporânea e não pode ser ignorada.
Sionismo trabalhista e socialista
A própria fundação de Israel esteve profundamente ligada às correntes do sionismo trabalhista e socialista, que exerceram enorme influência na formação do Estado. Experiências coletivistas como os kibutzim, a centralidade da central sindical Histadrut e o papel histórico do Mapai, o partido de David Ben-Gurion, demonstram que, durante décadas, o eixo político do sionismo esteve associado a projetos social-democratas, laicos e fortemente inspirados no socialismo.
A inflexão de 1967
A partir de 1967, com a ocupação da Cisjordânia e de Jerusalém Oriental, há uma inflexão importante que altera o eixo político de Israel. Ao longo das décadas seguintes, o movimento dos colonos deixa de ser marginal e passa a ocupar um lugar central no sistema político israelense. Esse processo não ocorreu de forma espontânea. Ele foi gradualmente incentivado por políticas estatais, por incentivos econômicos e por uma base ideológica que se consolidou, sobretudo, no campo religioso nacionalista.
Comparação com outros movimentos
A tendência de reduzir o sionismo a suas expressões mais radicais ou controversas contrasta com o modo como outros processos históricos são analisados. A experiência da União Soviética é um exemplo ilustrativo. Originada de um projeto revolucionário que pretendia transformar as relações sociais e econômicas, a URSS evoluiu para um sistema marcado por forte centralização política, repressão e formação de uma burocracia estatal com interesses próprios.
Leon Trotsky analisou esse processo como uma degeneração burocrática de um Estado que havia surgido com pretensões emancipatórias. Ao longo de sua trajetória, a União Soviética esteve associada a expurgos, perseguições políticas e restrições severas às liberdades civis. Ainda assim, a crítica a esse percurso histórico não implica a rejeição generalizada de todas as correntes socialistas, nem a negação da legitimidade das demandas que deram origem à revolução.
Debate contemporâneo
No debate contemporâneo sobre o sionismo, essa diferenciação nem sempre aparece. Frequentemente, correntes com posições muito distintas são tratadas como equivalentes, o que dificulta a compreensão das disputas reais em curso e limita a possibilidade de uma crítica mais precisa a políticas concretas do Estado de Israel.
Uma abordagem alternativa
A leitura proposta por Borochov sugere um caminho alternativo: analisar o nacionalismo a partir de suas bases materiais e de suas variações internas. Isso implica reconhecer que um mesmo movimento pode assumir formas progressistas ou regressivas, dependendo das condições históricas e dos grupos sociais que o conduzem.
Aplicar esse tipo de abordagem ao sionismo permite deslocar o debate de uma condenação genérica para uma análise mais diferenciada, capaz de identificar responsabilidades políticas, tensões internas e possibilidades de transformação. Em última instância, a questão que se coloca não é apenas como definir o sionismo, mas quais critérios são utilizados para avaliar movimentos nacionais e experiências históricas. Quando esses critérios variam de acordo com o objeto analisado, corre-se o risco de produzir interpretações assimétricas, que dificultam tanto a crítica quanto a compreensão.
Uma abordagem mais consistente exige reconhecer a historicidade, a diversidade interna e os conflitos que atravessam esses movimentos. No caso do sionismo, isso significa analisá-lo não como um bloco uniforme, mas como um campo em disputa, marcado por diferentes projetos políticos e por transformações ao longo do tempo.



