Protestos juvenis na Índia forçam renúncia de ministro da Educação
Protestos juvenis na Índia forçam renúncia de ministro

NOVA DELHI — As esperanças e frustrações dos jovens indianos explodiram em um movimento de protestos que ganhou força na semana passada na capital, Nova Delhi, forçando o governo a fazer concessões. Milhares de pessoas foram mobilizadas por líderes de um movimento juvenil que exige a reforma do conturbado sistema educacional da Índia e a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, a quem responsabilizam por um exame de admissão universitária mal conduzido que deixou milhões de estudantes desamparados.

Vitória expressiva dos manifestantes

No sábado, Pradhan apresentou sua renúncia ao primeiro-ministro Narendra Modi, dando aos manifestantes uma vitória expressiva. Os organizadores declararam o fim dos protestos, mas as queixas que alimentaram o movimento uniram uma base diversa: ativistas, acadêmicos, adolescentes curiosos, pais de trabalhadores manuais, filhos de famílias abastadas, celebridades consagradas, influenciadores recém-descobertos, ateus, agricultores, líderes religiosos e até um homem usando uma máscara do Homem-Aranha.

Desafio à liderança de Modi

O movimento pode continuar representando um dos maiores desafios dos últimos anos para a liderança de Modi. Os jovens respondem por 40% da população da Índia, de acordo com dados oficiais. Confira alguns depoimentos colhidos durante os protestos da semana passada:

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Amal Hayat, 20 anos

Amal Hayat, estudante de engenharia elétrica e de computação na Universidade Jamia Millia Islamia, em Délhi, é exatamente o tipo de jovem cujas ambições são essenciais para a visão de Modi de uma “Vikshit Bharat”, ou Índia desenvolvida, até 2047. Ela é a primeira mulher da família a ir para a faculdade — um motivo de orgulho — e disse ter escolhido engenharia porque tinha facilidade com matemática e queria seguir carreira em inteligência artificial. “Resolver problemas me traz paz”, disse ela.

Ela se juntou aos protestos não por causa de uma pessoa, partido político ou movimento. “É sobre os problemas, os estudantes, é sobre o futuro do país”, afirmou. Para ela, é uma questão de justiça. Na tarde de quinta-feira, circulou pelo local dos protestos segurando uma grande folha de papel na qual havia escrito com tinta preta: “Cassetete para estudantes, guirlandas para estupradores.” Hayat disse estar fazendo um comentário sobre a impunidade. Contrastou os cassetetes usados pelas forças de segurança para golpear manifestantes durante a marcha em direção ao parlamento na segunda-feira com o tratamento dado a alguns políticos indianos que continuam a desfrutar de mordomias mesmo enfrentando processos criminais por acusações graves, incluindo estupro. “Que tipo de justiça é essa?”, perguntou.

Anshu Gudiya, 13 anos

Anshu Gudiya, aluna do oitavo ano em Faridabad, na grande área metropolitana de Délhi, disse que foi aos protestos para ver o que estava acontecendo, mesmo que isso significasse faltar um dia de aula. Seu pai trabalha em um hotel em Délhi, e sua mãe é costureira. Seus pais a deixaram ir sozinha porque o escândalo que deu origem ao movimento — o exame universitário mal conduzido — “também afeta o meu futuro.”

Ciências é sua matéria favorita na escola, e ela quer estudar aprendizado de máquina e inteligência artificial, áreas que exigem exames administrados pelo governo para ingresso nas melhores faculdades públicas de engenharia. Ainda não pensou em seu futuro além disso, mas espera um dia “trabalhar no Google.” Anshu levou mais de três horas, após várias baldeações de trem e uma carona em bicicleta alugada, para chegar ao protesto, ao lado do observatório Jantar Mantar, do século XVIII. Ela se preparou para o sol implacável de Délhi com um lenço na cabeça e protetor solar. Soube dos protestos e do grupo por trás deles, o Cockroach Janta Party, pelo Instagram. “Eu também queria ver o protesto com meus próprios olhos”, disse.

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Chandan Kumar, 28 anos

Chandan Kumar é motoboy, não estudante, mas as reivindicações do movimento ressoaram nele. Como milhões de jovens indianos, ele foi forçado a escolher entre continuar os estudos e arrumar um emprego. Abandonou o ensino médio após a mãe adoecer, e a família precisar de renda extra para cobrir os custos do tratamento médico. Encontrou trabalho na construção civil e, com o tempo, abriu mão do sonho de voltar a estudar. Em determinado momento, aprendeu a usar o Excel e se candidatou a vagas de digitação, mas não conseguia digitar rápido o suficiente. Em 2018, encontrou emprego como entregador em uma popular plataforma de delivery de comida. “Quando uma pessoa não tem mais opções, precisa fazer o que aparecer pela frente”, disse.

O trabalho é “bom o suficiente”, disse Kumar, enquanto sentava em sua moto, descansando entre entregas de pedidos feitos pelos próprios manifestantes — de pizza a curry de legumes. Apoia a exigência dos manifestantes pela renúncia do ministro da Educação. Está esperançoso de que o sistema educacional será corrigido para que seu filho tenha um futuro melhor: “Comparado a onde estou, meu filho vai chegar a um lugar cem vezes melhor.”

c.2026 The New York Times Company