Política do filho único ainda afeta demografia e economia chinesas
Política do filho único ainda afeta China

A política do filho único, implementada na China entre 1979 e 2016, foi oficialmente abolida há uma década, mas seus efeitos ainda reverberam profundamente na sociedade e na economia do país. Em 2025, a China registrou apenas 7,92 milhões de nascimentos, enquanto 26 milhões de pessoas ingressaram na faixa de aposentadoria, agravando o desequilíbrio demográfico e pressionando o sistema previdenciário. O fenômeno, analisado pelo colunista Marcelo Ninio, revela que a mentalidade de famílias reduzidas se enraizou de tal forma que mesmo campanhas governamentais para incentivar a natalidade têm encontrado resistência.

A década após o fim da política

Quando a política do filho único foi revogada em 2016, esperava-se que a taxa de natalidade se recuperasse gradualmente. No entanto, o que se observou foi uma queda contínua, impulsionada por fatores culturais e econômicos. A urbanização acelerada, o alto custo de vida nas cidades e as exigências educacionais cada vez mais rigorosas contribuíram para que casais optassem por ter apenas um filho ou nenhum. Segundo dados oficiais, a taxa de fertilidade total na China caiu para cerca de 1,2 filho por mulher em 2025, bem abaixo do nível de reposição de 2,1.

O envelhecimento populacional é outra consequência direta. Com uma expectativa de vida em ascensão e uma base de jovens cada vez menor, a pirâmide etária chinesa se inverte. Em 2025, o número de pessoas com 60 anos ou mais ultrapassou 300 milhões, representando mais de 20% da população. Esse fenômeno é agravado pelo fato de que a geração do filho único, hoje na faixa dos 30 a 45 anos, enfrenta o desafio de sustentar dois pais idosos sem o apoio de irmãos.

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Números alarmantes de 2025

Os números divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China em janeiro de 2026 confirmam a gravidade da situação. Foram 7,92 milhões de nascimentos em 2025, o menor registro desde a década de 1960. Em contraste, 26 milhões de pessoas atingiram a idade de aposentadoria, criando um déficit de mão de obra que já afeta setores como manufatura e tecnologia. O relatório destaca que, pela primeira vez, a população em idade ativa (15 a 59 anos) caiu abaixo de 800 milhões.

Esse cenário coloca pressão sobre o sistema de seguridade social, que precisa atender a uma massa crescente de aposentados com uma base contributiva encolhendo. O governo chinês elevou a idade de aposentadoria em 2024, mas a medida é vista como paliativa diante da magnitude do problema.

Mudança de mentalidade enraizada

Estudos sociológicos apontam que a experiência urbana moldou uma geração de indivíduos mais focados em si mesmos e com menor disposição para sacrificar conforto e carreira em prol de filhos. A política do filho único criou o chamado 'pequeno imperador', uma criança superprotegida e com altas expectativas, que ao crescer desenvolveu traços de individualismo e aversão ao risco. Esses valores tornam a decisão de ter múltiplos filhos pouco atraente, mesmo quando o Estado oferece incentivos financeiros.

Além disso, a competição acirrada por vagas em escolas de elite e universidades, herdada do período do filho único, persiste. Os pais canalizam recursos intensivos para o único filho, gerando um ciclo de pressão que desestimula a expansão das famílias. Uma pesquisa do Instituto de População da Universidade de Pequim, em 2025, revelou que 70% dos casais urbanos consideram ideal ter apenas um filho, e que 15% preferem não ter nenhum.

Desafios econômicos e sociais

A combinação de baixa natalidade e envelhecimento populacional representa uma ameaça ao modelo de crescimento chinês, que depende de mão de obra barata e em abundância. A China envelhece antes de enriquecer, como alertam economistas. O Produto Interno Bruto (PIB) per capita ainda está muito abaixo do de países desenvolvidos com perfil demográfico semelhante, como Japão e Coreia do Sul. A produtividade do trabalho, embora em alta, não compensa a redução no número de trabalhadores.

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O governo chinês respondeu com políticas pró-natalistas, como subsídios para famílias com dois ou três filhos, licença-parental estendida e penalidades para empresas que discriminam mulheres grávidas. No entanto, os resultados são tímidos. Especialistas apontam que mudanças estruturais, como redução da jornada de trabalho e investimento em creches públicas, são necessárias para reverter a tendência. Enquanto isso, a China assiste a um futuro demográfico que parece irreversível, moldado por décadas de uma política que, embora extinta, deixou marcas profundas na alma do país.