A Copa do Mundo de 2026, que será sediada por Estados Unidos, Canadá e México, apresenta uma lista de patrocinadores que inclui desde marcas tradicionais como Adidas, Coca-Cola e Unilever até empresas estatais e ligadas a governos, como a petrolífera saudita Aramco, a Qatar Airways e o Bank of America. Essa composição revela uma transformação significativa: o Mundial deixou de ser apenas uma vitrine para multinacionais e passou a integrar estratégias internacionais de países.
Receitas da FIFA disparam
Para o ciclo de 2023 a 2026, a FIFA estima arrecadar até US$ 13 bilhões, mais de cinco vezes o total de duas décadas atrás. As receitas com direitos de marketing saltaram de US$ 560 milhões para uma estimativa de US$ 1,8 bilhão no mesmo período. Registrada na Suíça como associação sem fins lucrativos, a FIFA afirma reinvestir os recursos no futebol, mas enfrentou crises de corrupção que levaram a novas regras de controle.
Mudança no modelo de patrocínio
Segundo Flávio de Campos, professor da USP, a transformação da Copa em plataforma global de negócios começou nos anos 1970, com a eleição de João Havelange na presidência da FIFA. “A partir daí, a Copa passa a se consolidar como uma grande vitrine para negócios e propaganda”, afirma. Até os anos 2000, o patrocínio era concentrado; a partir de 2010, a FIFA criou categorias: FIFA Partners (globais e de longo prazo), patrocinadores da Copa (específicos do torneio) e apoiadores regionais.
Entrada de governos no patrocínio
A ampliação abriu espaço para estatais. Na Copa da Rússia (2018), a Gazprom tornou-se parceira global. No Catar (2022), Qatar Airways e QatarEnergy integraram o topo do patrocínio. Para Campos, isso caracteriza “sportswashing”: uso do esporte para melhorar a imagem de países. “No caso do Catar, havia uma tentativa de contrabalançar a imagem de uma monarquia autoritária”, diz.
Geopolítica na Copa de 2026
Em 2026, pela primeira vez com três sedes, o protagonismo do país anfitrião se dilui. A Arábia Saudita, via Aramco, ocupa a categoria máxima de patrocínio. Segundo a Human Rights Foundation, o contrato é estimado em US$ 100 milhões por ano entre 2024 e 2034. Campos destaca que os EUA usam seu poder político e militar para impor regras, como na proibição de a delegação do Irã permanecer em território americano após os jogos. “A disputa em torno da Copa reflete agora também disputas geopolíticas”, conclui.



