Maior apreensão de cocaína líquida do Brasil usa método de Pablo Escobar
Maior apreensão de cocaína líquida do Brasil usa método de Escobar

Uma operação internacional realizada no domingo (21) resultou na maior apreensão de cocaína líquida da história do Brasil e na segunda maior já registrada no mundo, segundo a Receita Federal. O esquema utilizava cargas de madeira para ocultar a droga, método que já foi empregado por traficantes, incluindo estruturas associadas a Pablo Escobar, para fugir da fiscalização.

Como funcionava o esquema

A investigação, que envolveu Brasil, Estados Unidos e Bolívia, identificou que caminhões transportavam toras de madeira das espécies aroeira e cedro, comumente usadas para fabricação de móveis, que haviam sido impregnadas com cocaína líquida. A droga era dissolvida em solventes específicos, como água ou etanol, e inserida na madeira, que passava por tratamento para aumentar sua porosidade. Após o transporte, o solvente era evaporado no destino final, recuperando o cloridrato de cocaína praticamente puro.

De acordo com o professor de química Marciano Simões de Souza, a cocaína pode ser dissolvida em diferentes solventes, como etanol, óleos e até líquidos alimentares. "Isso não é exatamente novo. A cocaína pode ser dissolvida em diferentes solventes, como etanol, óleos e até em alguns líquidos alimentares, como já houve registros em leite e outras substâncias", explicou. O professor destacou que a escolha do solvente é crucial para permitir alta concentração da droga em pouco volume, e que a madeira provavelmente recebe tratamento para aumentar sua porosidade.

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Dimensão da apreensão

Oito caminhões foram interceptados: quatro em Corumbá (MS) e quatro em Cáceres (MT). Exames preliminares confirmaram a presença de cocaína na carga. Com base em apreensões semelhantes, os investigadores estimam que entre 10% e 20% do peso da madeira corresponda à cocaína. Se a projeção se confirmar, a carga poderá conter entre 20 e 50 toneladas da droga, quantidade que só será confirmada após a extração do entorpecente do material apreendido pela perícia.

A Receita Federal informou que a carga de madeira foi declarada regularmente por meio do Portal do Comércio Exterior. Agora, a Polícia Federal investiga se as transportadoras tinham ligação com o esquema ou se houve adulteração após o carregamento.

Conexão histórica com Pablo Escobar

Para o mestre em história Carlos Roberto Benjoino da Silva, o método não é novo e faz parte de uma lógica antiga do tráfico internacional. "Esse tipo de método já era utilizado por grandes traficantes entre as décadas de 70, 80 e 90. A ideia sempre foi a mesma: esconder a droga dentro de cargas comuns para evitar a fiscalização. [...] O princípio é sempre o mesmo: misturar o ilícito ao que é aparentemente legal", explicou. Segundo ele, Pablo Escobar não inventou o método, mas o sofisticou durante o auge do cartel de Medellín, especialmente ao usar madeira para dificultar a detecção por cães farejadores.

Cooperação internacional

A operação contou com a Receita Federal, a Polícia Federal e o Exército Brasileiro, além de apoio das autoridades norte-americanas e da Fuerza Especial de Lucha Contra el Narcotráfico (FELCN), da Bolívia. A troca de informações entre os países permitiu o monitoramento dos caminhões na fronteira e a apreensão. A ação ocorreu em uma Área de Controle Integrado (ACI), onde os países compartilham procedimentos de fiscalização.

No último dia 6, a Aduana do Chile apreendeu 100 toneladas de cocaína vindas da Bolívia no mesmo esquema. Informações compartilhadas pelos EUA apontam que as duas apreensões estão relacionadas e têm origem no mesmo local de produção na Bolívia.

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