Madeira suspeita da Amazônia chega à Holanda e expõe falhas em certificações
Madeira suspeita da Amazônia chega à Holanda com certificação

Um relatório da ONG britânica Earthsight, publicado nesta segunda-feira, denuncia que milhares de metros cúbicos de madeira derivados de uma concessão florestal alvo de investigações na Amazônia chegaram ao mercado europeu. O destino final do material, segundo o documento, foram obras de infraestrutura e paisagismo na Holanda.

Origem da madeira suspeita

A madeira foi fornecida pela Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda., empresa paraense que, de acordo com o estudo, “acumula multas, suspensões operacionais e uma condenação criminal”. A investigação, apoiada pelo Center for Climate Crime Analysis (CCCA), utilizou imagens de satélite, decisões judiciais, documentos de transporte e registros de exportação relacionados à atuação da Samise na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará.

Segundo a ONG, o angelim-vermelho — espécie usada em decks, passarelas e estruturas externas — chegou ao mercado holandês por meio de importadoras que comercializam madeira certificada para obras de infraestrutura e paisagismo. Entre as empresas que receberam madeira dessa cadeia estão a Hoogendoorn Hout e a Van den Berg Houtgroep, duas das maiores importadoras europeias de madeira tropical brasileira.

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Falhas na certificação e fiscalização

Rafael Pieroni, líder da Earthsight para a América Latina, afirma: “A madeira investigada percorreu toda a cadeia de fornecimento e muito provavelmente chegou ao mercado europeu mesmo após suspensões operacionais, multas e investigações. Isso evidencia falhas tanto nos mecanismos de certificação quanto na fiscalização das cadeias globais de comércio de madeira.”

Entre os episódios destacados estão a suspeita de adulteração da identificação de mais de 600 toras avaliadas em cerca de R$ 550 mil, a suspensão das operações após indícios de fraude, o transporte de madeira durante período de suspensão e o envio de produtos para a serraria Greenex, posteriormente comercializados nos mercados doméstico e internacional.

O estudo aponta que, além de multas totalizando aproximadamente R$ 7 milhões por violações das leis brasileiras, a Samise devia mais de R$ 2,2 milhões ao governo federal em penalidades relacionadas ao não pagamento das taxas de concessão, o que levou a mais uma suspensão em março de 2025.

Certificação FSC e atraso no cancelamento

A empresa possuía certificação do Forest Stewardship Council (FSC) desde 2016 e foi alvo de sucessivas suspensões entre 2023 e 2025. O cancelamento do certificado ocorreu apenas em março de 2026. Para a Earthsight, o caso evidencia “limitações tanto do sistema de certificação florestal quanto da aplicação do Regulamento da União Europeia sobre Madeira (EUTR)”, legislação em vigor desde 2013 que proíbe a entrada de madeira ilegal na UE e exige procedimentos de diligência das importadoras.

Nesta segunda-feira, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima publicou a decisão do diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) de extinguir o contrato com a Samise, por entender que a empresa não consegue cumprir os acordos. A Samise ainda pode recorrer em 10 dias. O GLOBO tentou contato com a empresa, mas não obteve retorno.

Dependência excessiva de certificações

Segundo a organização, uma parcela relevante de empresas “continua tratando certificações ambientais como principal instrumento de verificação, sem realizar análises independentes mais aprofundadas sobre a origem dos produtos”. A investigação conclui que a dependência excessiva de certificações pode permitir que riscos relevantes passem despercebidos ao longo da cadeia de fornecimento.

A ONG defende a “implementação rigorosa da nova regulamentação europeia voltada ao combate ao desmatamento”, cuja entrada em vigor está prevista para dezembro de 2026. A norma exigirá controles mais robustos sobre a origem de produtos florestais comercializados no mercado europeu.

Pieroni conclui: “À medida que a União Europeia se prepara para implementar a nova regulamentação antidesmatamento, este caso reforça a necessidade de que a diligência das empresas vá muito além da simples verificação de certificados ambientais.”

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