A Autoridade do Canal do Panamá (ACP) anunciou nesta quinta-feira (21) que reduzirá, a partir de agosto, o número de reservas diárias para travessia de navios de 36 para 32, intensificando a pressão sobre o comércio global já afetado por gargalos logísticos e pela seca histórica que atinge a via interoceânica.
Redução gradual e impacto imediato
A medida, segundo comunicado oficial, será implementada de forma gradual: em 1º de agosto, as reservas caem para 34; em 8 de agosto, para 33; e, a partir de 15 de agosto, para 32. A decisão reflete a necessidade de gerenciar os níveis de água do Lago Gatún, principal reservatório do canal, que atingiu seu menor patamar em décadas devido à falta de chuvas.
Atualmente, o canal opera com 36 reservas diárias, número já reduzido em relação às 38 do início do ano. Em condições normais, a via pode realizar até 40 travessias por dia. A restrição afeta principalmente navios de grande porte, como os da classe Neopanamax, que transportam contêineres, gás natural liquefeito (GNL) e grãos.
Consequências para o comércio global
A redução das reservas deve aumentar os custos de frete e os atrasos nas entregas, afetando rotas que ligam a Ásia à costa leste dos Estados Unidos e à Europa. Segundo analistas, a restrição pode forçar navios a buscarem rotas alternativas, como o Canal de Suez ou o Cabo da Boa Esperança, alongando viagens em até 10 dias e elevando emissões de carbono.
"O Canal do Panamá é um gargalo crítico para o comércio mundial. Qualquer restrição tem efeito cascata sobre preços de commodities e prazos de entrega", afirmou John Smith, especialista em logística da consultoria Maritime Insights, em entrevista à Reuters.
Dados da ACP indicam que a receita do canal deve cair cerca de 15% no segundo semestre, enquanto os custos operacionais permanecem estáveis. A entidade estima que a redução de 4 reservas diárias representa uma perda de aproximadamente US$ 1,2 milhão por dia em taxas de pedágio.
Medidas de adaptação e perspectivas
A ACP informou que está implementando um sistema de leilão para as reservas restantes, permitindo que navios com maior urgência paguem mais para garantir a travessia. Além disso, estudos estão em andamento para dragagem do Lago Gatún e construção de reservatórios adicionais, mas as obras devem levar anos.
A seca na região é atribuída ao fenômeno El Niño, que reduziu as chuvas no Panamá em 40% em 2025. Especialistas preveem que a situação pode se agravar nos próximos meses, com a temporada seca se estendendo até novembro. "Estamos monitorando os níveis de água diariamente. Se a seca persistir, podemos ter que reduzir ainda mais as reservas", alertou o administrador do canal, Carlos Mendoza, em coletiva de imprensa.
A restrição já afeta setores como o de transporte de gás natural liquefeito, que utiliza o canal para levar cargas dos EUA para a Ásia. Empresas de navegação, como a Maersk, já anunciaram sobretaxas de US$ 500 por contêiner para rotas que passam pelo Canal do Panamá.
Enquanto isso, governos de países dependentes do canal, como Chile e Peru, pressionam por soluções rápidas. O governo panamenho estuda incentivos fiscais para atrair investimentos em infraestrutura hídrica, mas a aprovação de projetos pode enfrentar resistência ambiental.



