O Banco Central da África do Sul (SARB) surpreendeu o mercado financeiro ao manter a taxa básica de juros em 7% ao ano, contrariando as expectativas de analistas que previam um corte de 0,25 ponto percentual. A decisão foi anunciada nesta quinta-feira, 23 de julho, pelo Comitê de Política Monetária (MPC) do banco.
Decisão unânime do MPC
O MPC votou de forma unânime pela manutenção da taxa repo, que é a referência para os juros no país. A decisão foi considerada inesperada, pois a maioria dos economistas consultados pela Reuters projetava uma redução para 6,75% ao ano. O presidente do SARB, Lesetja Kganyago, justificou a manutenção dos juros com base na persistência de riscos inflacionários.
“O comitê avaliou que os riscos para a inflação permanecem inclinados para o lado positivo, especialmente devido a pressões nos preços de alimentos e energia”, afirmou Kganyago em coletiva de imprensa. “Manter a taxa inalterada é necessário para garantir que a inflação convirja para o centro da meta, de 4,5%.”
Inflação acima da meta
A inflação ao consumidor na África do Sul registrou 5,7% em junho, acima do teto da meta do banco, que é de 3% a 6%. Embora tenha caído em relação aos 6,3% de maio, o índice ainda preocupa as autoridades monetárias. O núcleo da inflação, que exclui itens voláteis como alimentos e energia, também permanece elevado, em 5,2%.
O SARB projeta que a inflação só retornará ao centro da meta no segundo trimestre de 2025. A decisão de manter os juros elevados visa ancorar as expectativas e evitar um descontrole inflacionário. “Ainda há incertezas significativas sobre o cenário global e doméstico, incluindo o impacto das secas na produção agrícola e a volatilidade nos mercados financeiros”, acrescentou Kganyago.
Impacto na economia
A manutenção dos juros em 7% ao ano deve pressionar o crescimento econômico da África do Sul, que já enfrenta baixa expansão. O PIB do país cresceu apenas 0,6% no primeiro trimestre de 2024, e o Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta crescimento de 1,1% para todo o ano.
O setor empresarial reagiu negativamente à decisão. A Câmara de Comércio e Indústria da África do Sul (Sacci) afirmou que “juros elevados continuam a sufocar o investimento e o consumo”. Por outro lado, o mercado de câmbio viu o rand se fortalecer ligeiramente após o anúncio, com a moeda sendo negociada a 18,20 rands por dólar, alta de 0,3% no dia.
Perspectivas futuras
Analistas agora revisam suas projeções para a próxima reunião do MPC, em setembro. A maioria espera que o banco central inicie um ciclo de cortes apenas no próximo ano, quando a inflação estiver mais controlada. O SARB também revisou suas projeções de crescimento para 2024 de 1,2% para 1,0%, citando os efeitos dos juros elevados.
“A decisão de hoje mostra que o banco central está focado em seu mandato de estabilidade de preços, mesmo que isso signifique sacrificar o crescimento no curto prazo”, comentou Elize Kruger, economista da NKC Research. “Esperamos que o primeiro corte de juros ocorra apenas no primeiro trimestre de 2025.”



