Em meio à concentração crescente das bolsas de mercados emergentes no setor de inteligência artificial (IA), a América Latina surge como uma das principais alternativas para investidores globais. Em relatório de estratégia para o segundo semestre de 2026, o Itaú BBA reforçou sua recomendação overweight (exposição acima da média) para a região, com preferência pelo Brasil. O banco argumenta que os mercados latino-americanos combinam valuations descontados, crescimento de lucros de dois dígitos e baixa correlação com as ações de tecnologia que lideraram os ganhos nos últimos meses.
Potencial de retorno de 30% e valuations descontados
Segundo o Itaú BBA, a carteira recomendada para a América Latina oferece potencial de retorno total de aproximadamente 30%, incluindo dividendos. O principal argumento é que a região negocia a múltiplos inferiores aos seus padrões históricos e aos de outros mercados globais. Atualmente, a América Latina é negociada a 9,7 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, cerca de 12% abaixo de sua média histórica.
Ausência de tecnologia como diferencial
Para os estrategistas do BBA, um dos grandes diferenciais da região é sua ausência quase total de exposição ao setor de tecnologia. Enquanto tecnologia representa 41,7% do índice de mercados emergentes (EM), a participação no índice latino-americano é praticamente nula. Isso reduziu a correlação da região com as bolsas da Coreia do Sul e de Taiwan, principais beneficiárias do ciclo de IA.
Desempenho superior desde junho
O banco destaca que, desde o pico recente do movimento ligado à inteligência artificial, em 22 de junho, a América Latina superou o desempenho do MSCI dos mercados emergentes em cerca de 14 a 15 pontos percentuais, movimento liderado principalmente pelo Brasil. Enquanto Coreia do Sul e Taiwan, os dois maiores expoentes do tema de tecnologia no universo emergente, acumulam correções de 23,7% e 1,3% em junho, respectivamente, a América Latina segurou melhor o desempenho, com alta de 2,3% no mesmo período.
Correlação cai e diversificação se valoriza
A correlação de 12 meses entre os ETFs de Brasil (EWZ) e o MSCI EM (EEM) caiu para 0,57, enquanto Coreia (0,92) e Taiwan (0,91) atingiram máximas de dez anos. Para o banco, isso significa que a diversificação oferecida pela América Latina tende a se valorizar justamente nos momentos em que o rali de IA perde força. “LatAm é o principal diversificador de emergentes para um trade de IA cada vez mais concentrado”, aponta o relatório.
JPMorgan também vê resiliência no Brasil
Na mesma linha, o JPMorgan também aponta que a recente correção das bolsas emergentes foi fortemente concentrada em tecnologia, especialmente nos mercados asiáticos, e que o Brasil foi um dos países mais resilientes durante o período. Desde o início da correção, o mercado brasileiro acumula alta de aproximadamente 4% em dólares, enquanto Coreia do Sul e Taiwan registraram quedas expressivas.
Além disso, o JPMorgan segue overweight em ações de mercados emergentes e mantém o Brasil entre seus mercados preferidos, ao lado de China, Coreia do Sul, Taiwan e África do Sul. O banco vê espaço para recuperação após a correção recente e destaca que os lucros das empresas emergentes continuam crescendo em ritmo superior ao dos mercados desenvolvidos.
Brasil continua sendo a principal aposta
Dentro da América Latina, o Itaú BBA mantém o Brasil como seu principal overweight, impulsionado principalmente por valuation atrativo e qualidade dos ativos. O mercado brasileiro negocia a cerca de 8,4 vezes lucro projetado, um dos menores múltiplos entre os principais mercados emergentes.
Na estratégia para o segundo semestre, o banco reduziu parte da exposição a ações domésticas cíclicas e aumentou o peso de exportadoras, preservando posições em setores considerados defensivos e geradores de caixa. O BBA segue positivo para empresas com receitas dolarizadas e para nomes ligados à infraestrutura, utilities e energia.
Temas preferidos e recomendações
Entre os temas preferidos estão infraestrutura e ativos considerados “bond proxies” (ações com comportamento parecido a títulos de renda fixa), financeiras de alta qualidade, empresas exportadoras e companhias classificadas como “compounders”, com crescimento consistente de longo prazo.
Entre as principais recomendações para a região estão várias ações brasileiras, como BTG Pactual (BPAC11), Equatorial (EQTL3), Axia Energia (AXIA3), Petrobras (PETR4) e Embraer (EMBJ3). Na visão do banco, a fabricante de aeronaves combina valuation ainda descontado com forte crescimento de resultados, enquanto a Petrobras segue atrativa pelo elevado retorno via dividendos e geração de caixa.
Cenário macro exige cautela
Apesar da visão construtiva para ações latino-americanas, o Itaú BBA alerta para um ambiente macroeconômico mais desafiador. Entre os principais riscos estão um Federal Reserve mais hawkish (duro, mostrando preocupação com inflação e com maior tendência a subir juros), fortalecimento do dólar, pressões inflacionárias associadas ao fenômeno El Niño e incertezas políticas e fiscais nos países da região.
No caso do Brasil, o banco projeta crescimento de 2,1% em 2026, inflação de 5,4% e Selic terminal em 14% neste ano, com espaço para cortes mais significativos apenas em 2027. Também aponta que a trajetória fiscal e as eleições seguem como fatores-chave para o comportamento dos ativos domésticos.
Ainda assim, os estrategistas argumentam que o conjunto formado por valuations descontados, rentabilidade elevada, posicionamento relativamente leve de investidores estrangeiros e menor dependência do tema IA cria um ambiente favorável para a região.



