Por que vou torcer pela Argentina na final da Copa
Por que vou torcer pela Argentina na final

Precisa de autorização para torcer? Olhando as redes sociais e até os comentaristas esportivos na TV, parece que sim. Domingo, dia de final da Copa do Mundo entre Argentina e Espanha, e uma enxurrada de teses prontas: “Por que você não deve torcer pela Argentina”. “Quem torce pela Argentina apoia o racismo”.

O futebol além do esporte

É evidente que o futebol deixou de ser apenas um esporte. Movimenta bilhões, influencia comportamentos e transforma jogadores em referências para milhões de pessoas. Justamente por isso, acho importante cobrar posicionamento de quem tem tanta influência. Gostaria, sim, que um ídolo do tamanho de Messi se manifestasse contra o racismo. Quem alcança tanta gente carrega responsabilidades.

Mas uma coisa não anula a outra: eu também gostaria de poder, numa final de Copa do Mundo, simplesmente torcer. E eu vou torcer pela Argentina. Minha escolha é afetiva. Tenho amigos argentinos, afilhadas argentinas, já estive no país diversas vezes, a trabalho e a lazer, e sempre fui muito bem recebida. Gosto da ideia de ver uma seleção latino-americana disputando o título, mesmo que muitos argentinos torçam o nariz para essa identidade. Basta atravessar o oceano para perceber que, aos olhos do resto do mundo, somos todos latinos.

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Escolha afetiva versus julgamento moral

Poderia torcer pela Espanha, terra dos meus bisavós? Poderia. Poderia lembrar da arrogância com que tantos argentinos tratam os brasileiros? Também. Mas prefiro não cair na armadilha de reduzir um povo inteiro a seus piores representantes. Dentro de campo, os argentinos ainda dão uma lição que a seleção brasileira tem esquecido. Mesmo quando estão perdendo, eles dificilmente entregam o jogo. Brigam, insistem, disputam cada bola. Em vez de gastar tanta energia torcendo contra eles, talvez a gente devesse cobrar que nossos jogadores demonstrassem metade dessa disposição.

No Brasil ou em qualquer país, sempre haverá gente reproduzindo preconceitos, defendendo ideias das quais discordo e decepcionando como cidadão. Se esse for o critério absoluto para escolher uma torcida, aliás, quantos atletas brasileiros passariam no teste?

Torcer sem atestado de virtude

Nada disso significa fechar os olhos para o racismo ou relativizar a importância de combatê-lo. Significa apenas reconhecer que nem toda torcida precisa funcionar como um atestado de virtude. Posso condenar o racismo, criticar o silêncio de jogadores e, ainda assim, escolher um lado numa final de Copa. Porque, apesar de tudo o que o futebol se tornou, eu gostaria que, por noventa minutos, ele pudesse ser também aquilo que sempre foi: um jogo.

Gabriela Germano é editora-assistente e atua na área de cultura e entretenimento desde 2002. É pós-graduada em Jornalismo Cultural pela Uerj e graduada pela Unesp. Sugestões de temas e opiniões são bem-vindas. Instagram: @gabigermano E-mail: gabriela.germano@extra.inf.br

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