Em 8 de janeiro de 1996, Merced e Petrucio Guimarães dos Anjos finalmente iniciaram a reforma da casa própria, no bairro da Gamboa, região portuária do Rio de Janeiro. O imóvel, construído em 1866, ganharia um segundo andar para as três filhas pequenas. Durante a escavação para as colunas, o pedreiro José encontrou ossos que inicialmente acreditou serem de cachorro. Merced, ao examinar, identificou uma arcada dentária humana adulta e outra de criança. O pedreiro chorou. Vizinhos e especulações sobre serial killers surgiram, até que um conhecedor da história local trouxe um mapa antigo indicando um cemitério próximo aos mercados de escravizados. "Você mora em cima de um cemitério. Você acaba de descobrir o cemitério dos escravizados", disse ele. Merced lembra: "Pensei: 'Caraca. O que eu faço com isso?'"
Redescoberta do Cemitério dos Pretos Novos
O Cemitério dos Pretos Novos funcionou entre aproximadamente 1770 e 1830, destinado a enterrar africanos recém-chegados que morriam após a travessia atlântica. Merced estima que 40 mil pessoas foram sepultadas ali, incluindo bebês, crianças e mulheres grávidas. A expressão "pretos novos" designava os cativos que ainda não falavam português. "Hoje, digo que encontrei aqui um holocausto. O holocausto negro", afirma Merced, emocionada. Até então, a história da região como entreposto de venda de pessoas era oculta. "Ninguém comentava. Essa história era escondida", diz.
Contexto histórico e o Cais do Valongo
Em 1774, o desembarque de escravizados foi transferido para a praia do Valongo, fora dos limites da cidade, por ser considerado "incômodo". Estima-se que 1 milhão de pessoas escravizadas tenham desembarcado ali até 1831. O Rio de Janeiro foi a cidade que mais recebeu escravizados no Brasil, e cerca de 300 mil morreram antes mesmo de chegar, segundo pesquisa da Emory University. Em 2017, a Unesco reconheceu o Cais do Valongo como Patrimônio Mundial. A descoberta de Merced, 15 anos antes, foi precursora. Em 2011, as obras do Porto Maravilha para os Jogos Olímpicos redescobriram o cais, lançando holofotes sobre o passado escravocrata.
Criação do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos
Em 13 de maio de 2005, no Dia da Abolição, Merced, familiares e ativistas fundaram o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN). A garagem da casa foi convertida em memorial com exposição permanente. No quintal, que teria piscina, funcionam café, loja e biblioteca especializada. A missão é pesquisar e preservar o patrimônio africano e afro-brasileiro, promovendo reflexão sobre a escravidão e suas sequelas. Merced, hoje com 69 anos, dedica-se integralmente ao instituto. "De alguma forma, elas me pediram para que não deixasse que fossem esquecidas", diz.
O sítio arqueológico e as valas
No memorial, uma janela de vidro no chão revela o sítio arqueológico com terra vermelha entremeada por pedaços de ossos. Merced descreve que não havia enterro digno: "Eram valas onde os corpos eram jogados de qualquer jeito. Fazia-se queima dos corpos por causa do mau cheiro. As valas eram tão cheias que os corpos embaixo eram quebrados." O cemitério não era clandestino: os óbitos eram registrados pela Igreja Católica, e o IPN obteve 12 anos de registros intactos. A maioria dos mortos foi listada anonimamente, com data de morte, navio e origem. Quando havia nome, muitas vezes era do "senhor".
Centro Cultural Pretos Novos e desafios
Em 2024, o IPN inaugurou o Centro Cultural Pretos Novos na rua do Livramento, para saraus, rodas de samba, exposições, oficinas e clube de leitura. A reforma foi feita com doações de amigos. Merced busca recursos para o segundo andar e espera apoio do BNDES, que desde 2023 investe na Pequena África via Iniciativa Valongo. O BNDES afirma estar em tratativas para formalizar parceria. Merced sonha com apoios permanentes: "Aqui não é qualquer lugar. É um lugar singular. Mas a gente fica catando recursos, pedindo esmola... É difícil." Até 2023, o IPN recebeu cerca de 300 mil visitantes. Merced questiona por que o Cais do Valongo recebe mais atenção que o cemitério: "O cais era onde chegavam; o cemitério, onde ficavam. O cais é pedra, aqui são corpos." Ela não sente missão cumprida: "Ainda tem muito o que fazer. Se eu dormir um pouquinho, isso acaba. Toda memória, se você deixar um dia sem falar, apaga."



